Donos de bares e restaurantes se dividem entre otimismo e desconfiança diante de reabertura

Otimismo, desconfiança, prudência ou a triste constatação de que é tarde demais. Essas são as reações de proprietários e gestores de bares e restaurantes que estão vivendo agora a expectativa de uma reabertura controlada de seus negócios. O anúncio oficial deve acontecer na próxima sexta-feira, 3. A previsão é que os estabelecimentos sejam autorizados a abrir suas portas a partir do dia 6 de julho.

Na esquina mais famosa da Cidade, no cruzamento da Ipiranga com a São João, o Bar Brahma tem atravessado a quarentena como a maioria dos estabelecimento: investindo no serviço de delivery. Além disso, o Brahma precisou lidar com uma fake news que sentenciou o seu fechamento durante a pandemia da covid-19.  “Inventaram muitas coisas, falara de um aluguel de R$ 40 mil… Mas não era verdade. Estamos ansiosos para comemorar os 72 anos de bar”, disse o gestor Anderson Moraes. A expectativa é que ele reabra, com todas as limitações impostas pela Prefeitura, a partir do dia 15 de Julho.

A decisão de não abrir logo na primeira semana, segundo Moraes, é uma forma de “mexer nos gargalos de estrutura” , como reformas em encanamento e banheiros. Ao reabrir, o Brahma irá operar com menos da metade da sua capacidade, com o distanciamento entre mesas e o uso primordial de seu terraço e áreas externas. O cardápio também irá sofrer adaptações para atender de forma mais adequada os clientes.

Se o Brahma já tem a expectativa de retomar as atividades em duas semanas, outro endereço histórico da cidade quer mais tempo para avaliar a viabilidade de uma reabertura. Para Facundo Guerra, proprietário do Riviera Bar, ainda não existe segurança para reabertura das casas. “Ainda está tudo muito confuso. Eu entendo a pressão para abrir, mas as pessoas ainda não estão seguras para frequentar bares e restaurantes”, contou.

Para ele, do ponto de vista prático, a abertura nas próximas semanas seria inviável. “É preciso recontratar parte da brigada (funcionários), treinar novos funcionários, refazer cardápio…”, enumerou Facundo. “O faturamento das lojas e shoppings que reabriram está entre 15% e 30 %. Abrir com 50% ou menos da operação pode representar um aprofundamento, e não um alívio, em nosso prejuízo. Com a casa aberta, perdemos, por exemplo, a possibilidade de negociar o valor de aluguel e outras questões”, completou.

Na mesma linha do Riviera, está a octagenária cantina Ropperto. “Não vamos abrir agora. O restaurante tem quase 80 anos, faz parte do grupo de risco”, brincou a proprietária Cristina Oka. ” A maioria dos nossos clientes está no gupo de risco. E outra parte é formada por turistas. Por isso não iremos abrir agora. Vamos esperar mais um tempo. Reabiri e ter que fechar daqui 15 dias seria mais prejudicial ao negócio”, comentou. “Tem gente gastando o que não pode para se adequar a um protocolo que sequer foi divulgado ainda. Vamos com calma. A operação de um restaurante é complexa. Não pode ter uma divulgação de protocolo na sexta e todo mundo correndo pra abrir na segunda”, completou Cristina. Por enquanto, a cantina continua trabalhando só com delivery e take away.

Já o bar Pasquim, na Vila Madalena, se diz pronto para receber seus clientes tão logo a Prefeitura autorize. “Estamos ansiosos para começar a funcionar. Nossa intenção agora é mostrar que o bar pode seguir todos os protocolos, mas de forma humanizada. Não queremos que o cliente perca a experiência do que é ir a um bar”, afirmou o proprietário Humberto Munhoz.

“Já tínhamos desenhado protocolos de higienização e afastamento. Também fizemos pequenas reformas na casa, mas o Pasquim tem a vantagem de ter uma área interna arejada, teto retrátil e pé direito alto”, contou Munhoz.

Também animado com a possibilidade de retomada está Gabriel Pinheiro, proprietário da Villa Roma Pizza. “Já temos um kit de higiene para os nossos clientes, álcool em gel nas praças, cardápio especial, máscaras para os funcionários, termômetros para aferir febre…”, disse. “Mas o principal é um projeto de selo auditado de segurança para bares e restaurantes. Já estamos negociando com uma empresa essa auditoria. O selo será uma garantia para o cliente de que o restaurante está de acordo com todas as normas de segurança”, completou.

Esclarecimentos. Algumas casas ainda estão em compasso de espera para saber exatamente quais serão os protocolos da Prefeitura. É o caso, por exemplo, do La Casserole, restaurante com 66 anos de vida, no Largo do Arouche. “Temos um planejamento já em andamento, com mudanças arquitetônicas e de paisagismos que obedecem protocolos de distanciamento, mas vamos esperar para saber aquilo que exatamente a Prefeitura vai exigir do setor”, disse o proprietário Leo Henry.

“Existe a hipótese de a Prefeitura exigir testagem semanal de todos os funcionários. Se isso acontecer, são cerca de R$ 30 mil por mês de gastos com testes. Essa testagem, com esses gastos, inviabiliza qualquer reabertura. O setor está perplexo com essa linha do tempo – de um anúncio que será feito na sexta para uma reabertura na segunda-feira”, afirmou Henry.  “Estamos morrendo de vontade de reabrir, mas não será só nossa vontade o que vai definir a reabertura ou não”, completou.

O Astor também está revisando o seu plano de reabertura – embora a planeje já para segunda-feira. “Mas ainda existem muitos pontos não esclarecidos. Por exemplo, é preciso entender qual será a limitação de tempo de funcionamento dos bares ou a partir de que horário vamos poder abrir. Também precisamos entender o que querem dizer com o uso de áreas ventiladas do bar. Esse conceito da possibilidade do uso de ‘áreas ventiladas’, que tem sido muito comentada no nosso meio, ainda não está claro. Esses detalhes mudam toda a nossa operação”, disse Ricardo Garrido, um dos sócios.

O Bar Léo, que comemora 80 anos de vida, também pretende reabrir o quanto antes, mas ainda aguarda das autoridades a sinalização da possibilidade de utilizar áreas externas. “Estamos acompanhando em cidades como Paris e Lisboa a possibilidade de colocar mesas nas calçadas. Essa pode ser uma boa solução para bares como o Léo. Ainda estamos aguardando esclarecimentos sobre essa possibilidade”, falou Moraes, que, além do Brahma, também trabalha na gestão do Bar Léo.

Tarde demais? A pandemia também fez suas vítimas fatais entre restaurantes tradicionais de Cidade. Ana Maria Massochi, proprietária do La Frontera, conta que a pandemia foi o “broche de ouro” para o fechamento definitivo da casa. “Não tinha mais como colocar dinheiro. Não tive ajuda do governo, não consegui renegociar aluguel. O prejuízo era alto. A pandemia concretizou essa realidade e tive que fechar”, disse.

Mas, principalmente, o fechamento do La Frontera foi uma forma de manter o foco (econômico) em outro restaurante, o Martín Fierro. “Ainda assim, não vou abrir imediatamente. Paguei três meses para que meus funcionários ficassem em casa se cuidando. Nesse momento, não é hora de fazer com que eles entrem em ônibus, metrô ou trens apinhados para vir trabalhar”, falou Ana Maria. “Vamos esperar algumas semanas para ver como fica. Não sou médica. Nem polícia para ficar fiscalizando clientes. Mas, quando reabriremos, vai ser da melhor maneira possível, com horário e cardápios reduzidos e toda a segurança”, completou.

Uma das histórias mais interessantes dessa pandemia é do restaurante Itamarati, no Largo São Francisco. A casa, que funciona desde os anos quarenta, foi atingida pela pandemia em um momento econômico delicado. Sem a possibilidade de honrar o pagamento do aluguel (R$ 22 mil) e outras obrigações, o estabelecimento cerrou suas portas.

O anúncio do fechamento fez com que clientes tradicionais do Itamarati iniciassem uma mobilização para garantir sua sobrevivência. “Juristas e advogados importantes, muitos ligados à Faculdade de Direito estão nos ajudando. A comoção foi grande. Já conseguimos iniciar uma renegociação de aluguel e, nessa semana, vamos nos reunir virtualmente para discutir saídas”, disse Marli Avanzzo.

Marli acredita que será aberta uma espécie de vaquinha para reabertura do bar. “Estou organizando uma espécie de ‘Dia do despendura’. Os clientes advogados, que fizeram o chamado pendura aqui no Itamarati, pagariam por refeições que não consumiram. O oposto do que acontece no dia do pendura”, disse. Embora a reabertura ainda dependa de muita ajuda, Marli está esperançosa em reabrir seu espaço até agosto.

COM AGÊNCIAS

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