‘Diminuir como?’: isolamento, rastreamento de contatos e testagem são as respostas da ciência para a pergunta de Bolsonaro

No dia em que o Brasil superou os 2 milhões de casos confirmados de Covid-19, o presidente Jair Bolsonaro tratou como “neurose” o isolamento social, medida recomendada pelos especialistas como a mais eficaz para evitar a contaminação pelo novo coronavírus, e questionou a viabilidade de diminuir o número de óbitos. Em transmissão ao vivo pelo Facebook na noite de quinta-feira (16), ele citou um estudo que apontou que 66% dos contaminados em Nova York (EUA) estavam em casa e foram infectados por parentes:

— Então, houve uma neurose no tocante a isso daí (isolamento). Ninguém disse que ninguém ia morrer por causa do coronavírus. Tanto ia como está morrendo, infelizmente. Agora, alguns acham que tinha como diminuir o número de óbitos. Diminuir como?

O EXTRA ouviu especialistas para saber como a ciência responde à pergunta do presidente. A pneumologista Margareth Dalcomo, pesquisadora da Fiocruz, Guilherme Werneck, professor do Departamento de Epidemiologia da Uerj e da UFRJ, e a microbiologista Natália Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência, afirmaram que, se algumas medidas tivessem sido adotadas desde o início da pandemia no Brasil, muitas mortes poderiam ter sido evitadas. Isolamento social, testagem, rastreamento de contatos e uma coordenação central sob o comando do governo federal são alguns dos aspectos enfatizados por eles. Orientar a população sobre a proteção individual e evitar a prescrição e a propaganda de medicamentos sem qualquer eficácia comprovada são algumas das medidas urgentes a serem tomadas pelo governo federal para ajudar a reduzir o crescimento dos números trágicos no Brasil, apontaram os cientistas.

— Não houve investimento em testes. Se o Brasil tivesse testado, feito o rastreamento de contatos e isolado as pessoas infectadas, a doença poderia ter sido contida — diz Margareth, que lista o que mais deve ser feito: — Orientar a população sobre a proteção individual, como evitar aglomeração e usar máscara. Redirecionar o investimento nos hospitais de campanha, que podem acolher pacientes com sintomas leves a moderados que não têm condições de fazer o isolamento e acompanhamento em seu domicílio.

Werneck também ressalta a importância do isolamento:

— Se o isolamento social tivesse sido incentivado como medida de prevenção, em nível nacional, poderíamos ter adiado o crescimento acelerado do número de casos e de mortes. No entanto, por falta de uma liderança do Ministério da Saúde, cada cidade fez do seu jeito. Algumas conseguiram fazer, outras não. É preciso aumentar a vigilância dos casos fazendo testagem e rastreamento de contatos. Não pode haver retomada total em locais com situações diferentes. Para muitas cidades, ainda não é hora de reabrir, isso pode aumentar o número de casos e de mortes.

Natállia concorda que muitas mortes poderiam ter sido evitadas se desde o início do crescimento do número de casos o país tivesse adotado o isolamento social.

— Nunca houve uma regulamentação da quarentena, uma orientação que mostrasse a real necessidade da medida. O país está sem um comando central no controle da pandemia. Nem ministro da Saúde nós temos (a pasta é comandada interinamente pelo general Eduardo Pazuello há dois meses). É necessário um comando central para que não haja mensagens confusas para a população, como o presidente fez ao não respeitar o distanciamento e promover aglomerações — afirma a microbiologista, que completa: — É preciso investir na testagem e no isolamento dos infectados. Ainda há tempo para adotar medidas e diminuir o número de mortes por Covid-19.

Com Agências

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