Digressão sobre o histórico do extermínio em massa no Brasil

Cerimônia de chegada dos índios da tribo Kaingang. Foto: Ricardo Stuckert

Cerimônia de chegada dos índios da tribo Kaingang. Foto: Ricardo Stuckert

Nada mais justo que se busque, no foro internacional adequado, julgar o genocídio, o genocida e os cúmplices deles

Bolsonaro irá enfrentar a terceira acusação de genocídio no Tribunal Penal Internacional da Haia.

Desta vez, são os trabalhadores e trabalhadoras da saúde que o acusam de extermínio em massa da população.

Nada mais justo que se busque, no foro internacional adequado, julgar o genocídio, o genocida e os cúmplices deles.

A esse respeito, vale uma digressão sobre o histórico do País.

Em “Missões – Crônica de um genocídio”, de Decio Freitas, publicado pela editora Movimento, recolhemos elementos importantes para a compreensão do extermínio em massa no Brasil, na America Latina e na África, pelas mãos do imperialismo e de sua aliada, a oligarquia local.

A obra discorre sobre a experiência missioneira no Sul do país, que fundou o Rio Grande do Sul, e atraiu a atenção de pensadores notáveis, como Voltaire e Rosa Luxemburgo, para quem as Missões Jesuíticas foram a república primitiva mais perfeita.

Em primeiro lugar, o autor em apreço tece a seguinte consideração sobre o genocídio do povo negro, trazido da África, escravizado: “Para o mercantilismo europeu, o negro extraído da África desempenhava o papel de moeda compradora das matérias-primas coloniais, tornando dispensável o desembolso da moeda metálica.”

O que dizer de uma oligarquia que aceitava a redução do ser humano à condição de moeda? Quando será julgada e condenada por um genocídio continuo, uma vez que, no Brasil ainda se mata 17 vezes mais negros do que nos Estados Unidos?

Quanto ao genocídio indígena, especificamente dos guarani, aquele autor registra na obra cuja leitura recomendo: “O objetivo direto e declarado dos bandeirantes consistia em caçar índios para vendê-los como escravos em São Paulo, no Rio e na Bahia, pois o suprimento de escravos negros sofrera uma queda brusca e violenta, primeiro pela perda das feitorias da costa ocidental da África em proveito de outras nações europeias e, mais tarde, pela conquista holandesa de Angola…Após algumas pequenas incursões que aparentemente visavam a um reconhecimento da região, os paulistas organizaram em 1628 uma bandeira composta de 900 brancos bem armados e municiados, e 2,2 mil índios armados de arco e flecha. Penetraram em Guaíra, em 1629, e durante 4 meses caçaram índios, destruindo 12 das 14 reduções. Segundo o Padre Francisco Vasquez, provincial jesuíta, o passivo foi em Guaíra de 200 mil índios, entre mortos e escravizados…A cifra mais provável é de 50 mil.”

Tendo em vista a dimensão desse crime, não seria o caso de, a exemplo dos EUA, do Reino Unido e da Bélgica, entre outros países, questionarmos as estátuas e os logradouros que enaltecem os bandeirantes? Tudo dentro da lei e da ordem, obviamente, acompanhando nota de protesto e live…

Com efeito, sobre bandeirantes que dão nomes a importantes rodovias, lemos na citada obra: “Em 1636, apareceu em Jesus-Maria uma bandeira de 150 portugueses e 1,5 mil tupis comandados por Antônio Raposo Tavares. Os padres, de acordo com o governador de Buenos Aires, haviam resolvido opor resistência armada. Dois jesuítas com experiência militar conduziram para o Tape armas e munições, adestraram os índios e ergueram fortes paliçadas à roda da redução, defendida ainda por uma valada…Durou cinco horas o combate. Conta o padre Ruiz de Montoya na Conquista Espiritual que os paulistas ‘brandiam espadas, machadinhas e alforges que derrubavam cabeças, truncavam braços, desjarretavam pernas, atravessavam corpos’. Atearam fogo à igreja em que se haviam refugiado mulheres e crianças; para salvar-lhes a vida, os padres renderam-se à discrição, o que não impediu que os paulistas capturassem e matassem mulheres e crianças…Os paulistas atacaram em seguida outras reduções. Permaneceram na região quatro meses e levaram 20 mil escravos…Em 1639, uma bandeira comandada por Fernão Dias Pais Leme avançou em direção às reduções a oeste do Jacui. Assolou diversas aldeias e cativou 2 mil índios. Os padres e os índios, entretanto, haviam sido prevenidos do avanço da bandeira e se tinham preparado. Um exército organizado pelo padre Diogo de Alfaro e comandado por Nicolau Nenguiru atacou e desbaratou a bandeira, liberando os índios escravizados. O padre Alfaro morreu de um tiro na cabeça, mas morreram também 4 paulistas. Dezessete paulistas, entre os quais o próprio Fernão Dias Pais Leme, foram capturados e levados para Assunção”.

A história nos remete à prisão recente de oligarcas brasileiros na Capital paraguaia, um deles, de grande exposição na imprensa desportiva. Remete, igualmente, à carta assinada, na semana passada, por 153 bispos brasileiros, em que denunciam a incapacidade e a incompetência de um governo que promove ‘economia da morte’ contra a população brasileira, atingindo principalmente os empobrecidos, em maioria de origem africana e indígena.

Porém, a história não se conclui em derrota: “A bandeira, comandada por Jerónimo Pedrozo, compunha-se de 500 a 600 mamelucos (“portugueses”, dizem os documentos jesuíticos). A bandeira chegou à margem direita do rio Uruguai, onde acampou, em dezembro de 1640. Em janeiro, dia 8, os índios tomaram a iniciativa, em número de dois mil…destroçaram a bandeira. Em debandada, os paulistas tomaram o rumo de São Paulo. Sofreram baixas de 120 brancos e um número incalculável de tupis. Essa foi a batalha de Mborore – nome de um afluente do Uruguai, em cujas proximidades se travou. Sua importância foi crucial. Pôs fim à caça e ao tráfico de índios no sul do continente”.

Destarte, esperança, fé e caridade. A história, para os que com ela aprendem, tem sempre um final feliz.

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