‘Desistir do Renda Brasil mostra ineficiência, falta de visão e dificuldade de debate do governo’, diz especialista

Mais que uma decisão política, o abandono intempestivo do projeto do Renda Brasil, que seria uma reforma do Bolsa Família, mostra a falta de projeto do governo, ineficiência da atual administração, afirma André Marques, coordenador executivo do Centro de Gestão e Políticas Públicas do Insper.

Para ele, não há base para abandonar um projeto após as primeiras críticas: se era algo importante para a população, ele deveria seguir, em um debate democrático. O especialista afirma ainda que estas decisões intempestivas do presidente ampliam as incertezas no país, frustrando a população e ampliando as incertezas, o que afasta investimentos.

Como o senhor viu a decisão do presidente de, após meses de debates, abandonar o Renda Brasil?

Ao invés de estar preocupado e investindo no que é melhor para a população, ver o melhor projeto, você perde muito tempo com filigranas, como o nome. No final do dia, para a população, isso não importa, se o nome é “A”, ou “B”. Isso mostra a falta de foco no que realmente é importante. Agora, ao abandonar a reforma do Bolsa Família, isso só vai piorando. Não estou dizendo que o Bolsa Família atual precisa ser reformado ou é ótimo, não vou entrar neste mérito, mas o governo havia decidido que essa reforma era necessária e abandonar isso assim, num rompante, é péssimo. Esse abandono repentino mostra a falta de interesse de fato com o assunto, parece que você está mais preocupado com sua marca social que com o interesse da população. Mostra uma profunda falta de planejamento.

O que parece ter causado o fim do programa foram as notícias negativas sobre as formas de financiamento, que viriam da redução de outros programas sociais. O presidente é muito pressionado pela opinião pública?

A democracia dá trabalho. E por mais que dê trabalho ela, no final do dia, é mais forte, após debater, conversar, abrir seus projetos para a opinião diversa, ter mais informação. É preciso investir tempo para aperfeiçoar. Se você não está com disposição em investir tempo para melhorar, então é mais simples você desistir, não falar mais do assunto e virar a página. É uma simplificação da gestão que no final só afeta a população. A ampla discussão dá trabalho, toma mais tempo, mas o debate qualificado é o melhor. Não dá para decidir com achismo, “eu acho que agora não precisa mais, eu acho que setor tal não gostou”. Isso só enfraquece e deteriora as políticas públicas no país. O debate é importante, não é porque uma opinião é diversa que ela é ruim. As simplificações são extremamente perigosas na gestão pública.

Neste caso o que ficou mais nítido: a falta de apreço ao debate democrático ou a falta de gestão e projetos do governo?

Não vou entrar no mérito se isso é algo contra a democracia, vou ficar no aspecto técnico: isso mostra uma falta de gestão, uma falta de eficiência, que pode estar atrelada a uma questão democrática, que afeta a população. Isso mostra também uma falta de visão de onde queremos chegar, falta de objetivos, falta de planos estratégicos e uma falta do conceito do que queremos mudar. É a falta de entendimento do porquê um governo existe.

O cenário não mudou, certo? Ou seja, se há dois meses o governo decidiu pela necessidade da reforma do principal programa social do país….

Exato, e essa mudança de opinião bruca custa dinheiro, custa tempo. Enquanto se discutia essa reforma, deixou-se de discutir outros temas. Talvez, no fim das contas, talvez a melhor decisão realmente seja manter tudo como está, não estou defendendo que tem que mudar, mas isso precisa ser embasado, depois de discutir com a sociedade, depois de estudar, chegar a uma conclusão de que o atual modelo é o melhor modelo. Essa tem que ser a discussão. Não um rompante, por falta de vontade de debater.

Isso mostra também que o governo parece estar entendendo que seu espaço fiscal é limitado…

As escolhas fazem parte de todo o momento de nossas vidas. Mas, na parte fiscal, muitas pessoas infelizmente acham que o orçamento é infinito, é um saco sem fundo. Não é, e a crise fiscal foi agravada com a pandemia. As pessoas estão começando a entender que o orçamento não é infinito. Isso é um ponto positivo. Mas isso não significa que abandonar o novo programa seja o melhor: será que todos os demais programas que serão mantidos são os mais eficientes? É preciso de uma análise geral, do gasto mais eficiente, que uma decisão de rompante só para manter o teto fiscal.

O governo estava há semanas falando do Renda Brasil, gerando expectativas na população, empresários, investidores. Como fica isso agora?

Há um impacto para toda a sociedade, para a população, para os investidores de capital nacional e estrangeiro, para todos os atores, pois você fica sem saber o que vai acontecer amanhã. Você tem a sensação que ao acordar e ler os jornais vai ter um rumo completamente diferente. Como você consegue investir em um país onde não se discute o futuro da população e redução das desigualdades, pois você não sabe qual a medida que sairá no Diário Oficial amanhã? Também não adianta ter só o planejamento se você não executa, as ações precisam vir de mãos dadas: planejamento e execução, com uma visão clara de nossa direção. Essa falta de visão gera uma falta de crença na economia e nas instituições que vira um círculo vicioso, onde você fica parado, regredindo. Quem vai apostar em um país sem que você saiba qual é o seu norte?

Leitores On Line