Contra o racismo no País, atletas brasileiros evitam expor opinião

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<span class=”legend_box “>Reação no Brasil difere do que ocorre na NBA</span>
<span class=”credit_box “>Agência Estado/23-11-08</span>
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A paralisação da NBA e de outras ligas nos Estados Unidos por alguns dias em apoio aos protestos contra o racismo e a brutalidade da polícia, que baleou Jacob Blake, um homem negro, com sete disparos, em Kenosha, Wisconsin, reacendeu a discussão sobre a importância do posicionamento dos jogadores <strong><a href=”https://esportes.r7.com/”>brasileiros</a></strong> diante da discriminação racial.</p>

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No Brasil, apesar da proliferação de casos de violência contra negros (pretos e pardos são 75% dos mortos pela polícia, segundo relatório da Rede de Observatórios da Segurança), o cenário é diferente, e são poucos os atletas que se manifestam contra a discriminação racial.</p>
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Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, os atletas não são os únicos responsáveis pela omissão diante da pauta antirracista. A questão é complexa e o problema é estrutural, de modo que há fatores que desencorajam o atleta a se posicionar.</p>
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“Não depende só deles. É preciso que as entidades, clubes e federações incentivem essas manifestações porque o que estamos vendo nos EUA, além de ser algo coletivo, é também algo apoiado por essas instituições”, diz Marcelo Carvalho, fundador e diretor do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, que mapeia casos de racismo no País e exterior.</p>
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O relatório mais recente, ainda não lançado, aponta que houve 65 denúncias no futebol brasileiro em 2019 – 13 a mais do que em 2018. A entidade ainda monitora outros preconceitos como xenofobia e homofobia.</p>
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Outro fator que desmotiva o jogador a se posicionar é o medo de represálias, algo que acontece até com famosos, como Colin Kaepernick, astro da NFL. “Aqui no Brasil a gente está voltado para o individual, desejando que os atletas se manifestem e que desse posicionamento saia algo coletivo. Mas a gente esquece que o histórico mostra que quem se posicionou sofreu represálias. Então, isso faz com que muitos, por mais que queiram, não o façam porque têm medo, receio”, diz Carvalho.</p>
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“O sistema não quer que ele fale sobre isso. O sistema e a estrutura são racistas. Se ele se manifestar, vai perder patrocínio, possibilidade de transferência. Vai ser visto como um negro encrenqueiro”, destaca o ex-árbitro Márcio Chagas, um dos poucos negros que apitou partidas de futebol no País.</p>
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Ele fala com a experiência de quem já foi vítima de injúria racial. Em 2014, teve bananas atiradas em seu carro após trabalhar no jogo Esportivo e Veranópolis, em Bento Gonçalves. Não teve apoio da Federação Gaúcha e encerrou a carreira mais cedo. “O sistema desenhado no futebol nada mais é do que uma representação contemporânea da escravatura. Paguei o preço quando denunciei.”</p>
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A questão, porém, vai além do medo das represálias. Está ligada à cultura brasileira, na qual impera a falta de conhecimento dos atletas, e da sociedade no geral, sobre a história dos negros. Além da educação, o lado financeiro é ainda um empecilho para que haja avanços.</p>
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“O pessoal aprende na escola a dar importância para a princesa Isabel, e não valoriza nossos heróis negros, Malcom X, Zumbi dos Palmares etc. Os jogadores não têm conhecimento para lutar contra esse sistema racista”, enfatiza Wilson Santos, ex-jogador que passou por São Paulo e Inter, por exemplo.</p>
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Wilson é sobrinho de Wladimir, jogador que mais vezes vestiu a camisa do Corinthians, com 805 jogos, e figura importante na Democracia Corintiana, movimento que lutou contra a ditadura militar. “Venho de uma família em que conversávamos sobre racismo, com meu tio Wlad. Nossa autoestima sempre foi alta. Por mais que a gente escutava muitas coisas sobre tipo de cabelo, cor da pele, a gente conversava em casa e reforçava que éramos bonitos, nosso cabelo era bom. Não deixávamos nos abalar”, reitera.</p>
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“O racismo é um crime perfeito no Brasil porque quem denuncia acaba se tornando vilão e quem comete vira vítima. O jogador ou quem se posiciona é vitimista, oportunista, ‘mimizento’. Quem denuncia se sente sozinho e não tem acolhimento algum”, observa Márcio.</p>
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<strong>Veja também: <a href=”https://esportes.r7.com/futebol/confira-jogadores-que-chegaram-aos-40-anos-na-elite-do-futebol-14092020#!/foto/1″>Confira jogadores que chegaram aos 40 anos na elite do futebol</a></strong></p>
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O esporte brasileiro carece de um LeBron James. Não conta com astros como a tenista Naomi Osaka e o piloto de Fórmula 1, Lewis Hamilton. Todos eles ecoaram os protestos nos EUA. “Os atletas de nome que têm voz na NBA vivem a realidade lá. Os nossos melhores não estão nem aqui, não vivem a realidade do Brasil”, diz Carvalho.</p>
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<strong>FALTA ESTUDO -</strong> No geral, a construção moral do atleta americano passa pelas universidades, ao contrário do que ocorre com os jogadores brasileiros de futebol, que não incentivados a estudar as mazelas sociais e criar uma visão crítica. Existe o agravante de que são condicionados, pelas pessoas ao seu redor, a só focarem no futebol e se fecham num bolha.</p>
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Esse ambiente impede que enxerguem o que ocorre no mundo. “Quando jogava, sentia na pele, mas estava tão concentrado no jogo que encarava como uma forma de o rival me tirar do sério. Escutava, mas relevava. Ficava bravo, mas não queria me desconcentrar”, diz o ex-zagueiro Wilson. Ele cobra apoio de federações, clubes e entidades esportivas no envolvimento das causas sociais, como nos EUA.</p>
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<strong>DESIGUALDADE SOCIAL INCOMODA -</strong> Há atletas brasileiros, porém, que já encampam essa luta e se tonam um contraponto à postura da maioria de seus colegas. É o caso de alguns jovens futebolistas, como Paulinho, do Bayer Leverkusen, Gregore, do Bahia, Jean Pyerre, do Grêmio, e Lucas Santos, do Vasco, que têm se engajado nas causas sociais do País, seja pela proximidade com as redes sociais, que lhes dão a possibilidade de interagir e mostrar suas visões de mundo, ou pela influência familiar.</p>
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Lucas Santos foi criado na comunidade Para-Pedro, na zona norte do Rio de Janeiro. Lá, desde cedo, notou a desigualdade marcante na vida dos que estavam ao seu redor. Logo, com a ajuda da família, o meia foi pavimentando seu caminho no futebol ao mesmo tempo em que moldava sua consciência de classe e de raça. Com 21 anos apenas, ele impressiona pelo discurso consciente.</p>
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“Todos os esportes deveriam fazer um movimento ou tomar uma atitude na questão racial e contra todos os tipos de preconceito. O boicote da NBA vai mexer um pouco com a estrutura racial aqui no Brasil. Porém, acho que o futebol brasileiro não teria rodadas paralisadas, infelizmente”, admite ao Estadão o meia do Vasco. “Falta aos jogadores daqui ter mais ciência da importância da briga contra esse preconceito e os outros também”, comenta.</p>

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