Comprar chave barata do Windows 10 é confiável? O Canaltech testou

A oferta é tentadora. Afinal de contas, quem resistiria a um produto que custa R$ 730, mas pode ser encontrado por R$ 30? Ainda mais quando estamos falando de uma solução como o Windows 10, um dos sistemas operacionais mais populares do mundo e que é usado diariamente por pessoas comuns, empresas, gamers e toda sorte de indivíduo que senta diante do computador.

Ninguém gosta de ver o aviso de que a plataforma não está licenciada ou ter seus recursos reduzidos, então adquirir uma licença que acaba com isso é altamente atrativo. Basta uma pesquisa para encontrar diferentes propostas de venda, com valores que também variam bastante, apesar de sempre serem um bocado baixos e bem mais em conta do que os praticados pela Microsoft.

No Mercado Livre, por exemplo, o comércio é amplo, com valores que chegam a até R$ 14,99 por uma chave do Windows 10 Pro que, oficialmente, é vendida por R$ 1.099. Em alguns casos, a compra ainda acompanha como “brinde” uma segunda licença, que pode ser do pacote Office, Google Drive ou de outros serviços. Uma busca no Google também apresenta dezenas de resultados, muitos deles patrocinados e aparecendo acima do site oficial da própria Microsoft, enquanto no Instagram, depois de fazer essa pesquisa, você verá dezenas de anúncios de lojas desse tipo em meio aos Stories de quem você segue.

 

Mercado de chaves de Windows 10 e outros softwares é amplo, com preços de todos os tipos, ofertas patrocinadas, opções no Mercado Livre e até “brindes” na forma de licenças combinadas (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Um grande negócio, sem dúvida nenhuma. Mas basta pensar um pouco para perceber que há algo de estranho aqui. Afinal de contas, como é possível para um terceiro vender uma solução da Microsoft por um valor que, muitas vezes, não chega a 10% do praticado oficialmente por ela? Os sites que vendem chaves baratas do Windows 10 ou do Office são confiáveis e seguros? Acima de tudo, essas keys realmente funcionam? O Canaltech foi tirar a prova.

Entendendo o mercado

Antes de entrarmos diretamente nesse tema, é importante tirar um tempo para esmiuçar como funciona o mercado de chaves do Windows 10. Afinal de contas, nem todos pagam os R$ 730 por uma licença — esse é o valor tabelado para o usuário final, que fica vinculada à conta da Microsoft. Trata-se, basicamente, da alternativa digital ao que, antes, era o processo de ir até a loja e comprar o Windows na caixa, levando o CD de instalação para casa.

No linguajar oficial, a Microsoft chama esta categoria de FPP, algo como “produto embalado”, em uma tradução livre. Você também pode encontrar licenças desse tipo sendo chamadas de Retail, ou “varejo” em inglês. Aqui, o dono é o próprio usuário, com a chave ficando vinculada à sua conta da Microsoft, permitindo, por exemplo, que ele desative o Windows em um computador e o ative em uma máquina nova, caso faça uma substituição.

Não é o que acontece, entretanto, com as licenças OEM, bastante comuns no mercado de notebooks e cuja sigla em inglês significa Fabricante Original do Equipamento. Neste caso, o sistema operacional vem pré-instalado e a licença fica atrelada ao dispositivo específico, por meio do hardware, não sendo possível desativá-la para utilização em uma nova máquina.

 

Lojas também investem em anúncios nas redes sociais e prometem experiência de compra facilitada, com garantia e nota fiscal (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

É quando falamos das licenças de volume que as coisas ficam um pouco mais complexas e não tão diretas. Isso se deve ao fato de que essa categoria de compra do Windows 10 é voltada a empresas ou grandes organizações que podem precisar de um volume considerável de máquinas ativas com o sistema operacional. Nesse caso, contratos especiais são feitos com um mínimo de cinco chaves e máximo de acordo com as necessidades do cliente.

Nessa categoria também entram as licenças educacionais, por exemplo, que fazem parte dos programas da Microsoft como o Imagine, voltados a entregar chaves a estudantes como forma de promover a inclusão digital e o estudo da tecnologia; ou programas especiais para licenciamento para companhias que lidam com um número variável de ativações e estão sujeitos a necessidades sazonais. Nestes casos, a própria organização é responsável pelo gerenciamento, concessão ou desligamento das licenças, dentro do total acordado e cedido pela desenvolvedora do Windows 10.

Inconsistências e o primeiro sinal

O Canaltech decidiu adquirir algumas licenças do sistema operacional para testar na prática como todo o processo funciona e, claro, verificar a autenticidade das chaves. Três varejistas foram escolhidas com base no destaque dado a elas em mecanismos de busca e pela exibição de anúncios nas redes sociais.

A primeira foi a R&R Software Store, loja que afirma ser uma das parceiras oficiais de revenda da Microsoft. Um link encontrado no site nos leva diretamente à página que confirma esse status, onde ela é chamada de R&R Licenciamentos, nome que também consta no CNPJ cadastrado.

Além de licenças para produtos Microsoft, a empresa também com antivírus de marcas como Avast e Kaspersky, além de softwares gráficos da Adobe por valores bem abaixo dos praticados no site da empresa. Outros produtos, porém, aparecem com preços até maiores que os oficiais, como é o caso de uma assinatura de 12 meses da PlayStation Plus vendida por R$ 178,99. Para esta matéria, o Canaltech adquiriu uma licença do Windows 10 Pro por R$ 129,99.

Antes mesmo da compra, entretanto, algumas coisas chamaram a atenção da reportagem. O endereço registrado no CNPJ da R&R Software Store, referente a um prédio de escritórios no centro do Rio de Janeiro (RJ), não era o mesmo listado na página em que a parceria com a Microsoft é confirmada — lá, os dados apontam para um edifício comercial, mas em Porto Alegre (RS).

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Empresas apresentam dados inconsistentes, com endereços que não existem, diferentes responsáveis ou CEPs errados. Em um dos casos, local indicado é o centro administrativo do metrô do Rio de Janeiro (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Na nota fiscal, mais uma inconsistência. Ela foi emitida a partir de um CPF e não CNPJ, enquanto o nome da empresa citada é R&R Licenciamentos Oficiais Microsoft. No documento, ainda, um terceiro endereço, sem número e localizado no bairro de Santa Lúcia, em Vitória (ES).

Nossa segunda escolha foi a Versales Soft, que também afirma ser parceira oficial de revenda da Microsoft. No site da empresa, entretanto, ela aparecia com outro nome, Soft Mania, e outras informações discordantes. Um dos endereços, de Vitória (ES), não existe e acompanhava um CEP que, na realidade, era da cidade de Espírito Santo, no Rio Grande do Norte; situação semelhante no segundo, uma rua sem número no bairro Candeias, em Vitória da Conquista (BA), mas com CEP do centro da cidade.

Mais um grande sinal de problemas apareceu no endereço registrado no CNPJ, que nos leva ao centro administrativo do MetrôRio, empresa que controla o transporte coletivo do Rio de Janeiro (RJ). Ainda assim, o Canaltech seguiu adiante com a compra de uma licença do Windows 10 Pro no valor de R$ 129,90.

 

Durante a apuração, uma das lojas foi “bloqueada para acessos” e deixou de vender os produtos, mas não respondeu a pedidos de esclarecimento sobre o caso (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Um terceiro nome apareceu no processo de pagamento, vinculado à conta do sistema PagSeguro usado para recebimento dos valores, que pertenceria à responsável por uma loja online chamada Cristais da Chapada. O domínio ligado a esta empresa, porém, não tem site disponível, enquanto aquele usado para comunicação com os clientes, pertencente à Soft Mania, apenas apresenta uma mensagem de erro do Loja Integrada, sistema que fornece a pequenos varejistas uma plataforma de e-commerce para ser utilizada em domínios próprios.

Nossa última opção foi a Tech Software, que também possuía um ícone de parceiro certificado da Microsoft, mas sem um link que nos levasse à página correspondente no domínio da própria empresa. Ainda no início de nossa apuração, porém, a loja passou a exibir um aviso de que foi “bloqueada para acessos”, juntamente com dados que não apareciam antes. O endereço citado no site nos leva a um condomínio de apartamentos em Guarulhos (SP), mas não foi possível confirmar essa informação junto à Receita Federal, pois o CNPJ usado se encontra baixado. Sendo assim, não foi feita uma compra de chave nesta plataforma.

Funciona? É confiável?

A resposta é sim. Ambas as chaves adquiridas pelo Canaltech foram validadas sem problemas e permitiram uso irrestrito do Windows 10 dentro das possibilidades da versão escolhida do sistema operacional. As instalações foram utilizadas diariamente desde meados de junho, quando fizemos a aquisição das licenças, e pelo menos até o momento em que esta reportagem é publicada, permanecem funcionando sem problemas.

Antes do teste efetivo, porém, conversamos com o suporte da Microsoft para, quem sabe, resolver o mistério dos valores cobrados. Os atendentes da empresa por telefone, porém, nos disseram não poder informar sobre a procedência das chaves que tínhamos em mãos, mas os dois contatos, com funcionários diferentes, resultaram em uma informação semelhante: nenhuma delas correspondia a uma licença de varejo, ou seja, em teoria, elas não deveriam estar sendo vendidas a usuários finais.

 

Por meio do suporte, Microsoft não pôde informar sobre a origem das licenças adquiridas pelo Canaltech, mas disse que elas não eram voltadas para o varejo, ou seja, não poderiam ser vendidas diretamente a usuários comuns. Além disso, representantes alertaram sobre risco de desativação em caso de irregularidades (Imagem: Reprodução)

Os representantes também informaram que ambas eram válidas e não haviam sido ativadas em outros dispositivos anteriormente. Entretanto, durante a conversa sobre a licença vendida a nós pela R&R Software, o atendente nos explicou que licenças desse tipo podem ser revogadas pela Microsoft a qualquer momento caso sejam encontradas irregularidades no processo de compra, venda ou emissão delas. Neste caso, o resultado direto seria a desativação do Windows 10 do usuário de forma permanente.

Essa possibilidade se mostra real em reclamações de usuários feitas por meio do Reclame Aqui. No serviço, a R&R Software tem uma nota 2.9, de um total de 10, sendo que a maioria dos relatos envolve a demora ou o não envio de chaves de softwares e a desativação deles após algum tempo de uso, sem que a empresa prestasse o devido atendimento aos clientes. Já no caso da Tech Software, as postagens se acumulam em relação ao “sumiço” da empresa, também com pedidos não sendo entregues e uma ausência completa de suporte aos produtos vendidos anteriormente.

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Nas páginas das empresas no Reclame Aqui, se acumulam os relatos de suporte inexistente, licenças que deixam de funcionar ou demora no envio dos produtos (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Emilio Simoni, diretor do dfndr lab, o laboratório especializado em segurança digital da PSafe, também destaca a ideia de que as keys, se não adquiridas por meios oficiais, possam ser desativadas ao longo do tempo. Segundo ele, há risco em investir em uma chave ilegítima de um software sem conhecer sua procedência. “É possível que esta [licença] não seja mais útil após certo tempo ou simplesmente não funcione logo de início”, completa.

Por outro lado, não existem perigos quanto aos dados trafegados em dispositivos que utilizem softwares validados desta maneira, já que apenas a ativação foi feita de forma irregular, enquanto a plataforma em si não sofre alterações. Simoni ressalta, entretanto, que o risco está em confiar no comerciante não-oficial, que pode não prestar um suporte pós-venda adequado ou não contar com procedimentos corretos de segurança em seu marketplace, que é de responsabilidade das empresas que hospedam tais serviços.

Meias palavras

O desencontro de informações nos cadastros das varejistas também se estende à comunicação com clientes e a imprensa, com o único contato bem-sucedido acontecendo por meio do chat online da R&R Software Store. Quando questionada sobre como conseguiria cobrar valores tão mais baixos que os oficiais praticados pela Microsoft, a companhia afirmou ser “fornecedora internacional de software”, comprando as chaves “em grandes quantidades para poder praticar o melhor preço ao cliente”.

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Em contato via chat, loja explica como conseguem praticar preços tão mais baixos que os oficiais e prometem “garantia em nota fiscal”, sem detalhar o que isso significa (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Já sobre o funcionamento da licença ou a possibilidade de substituição em caso de problema, a representante, intitulada apenas como Ana, se limitou a afirmar que “o produto possui garantia em nota fiscal”, sem dar mais detalhes sobre um possível processo de pós-venda. A loja não respondeu a comunicações posteriores feitas pela reportagem.

A Versales Soft também não retornou ao Canaltech, tanto por e-mail quanto pelo sistema de chat disponível em seu e-commerce. Dias após a compra de nossa chave, porém, o site se tornou inacessível e permanece assim no momento em que este texto é publicado. A Tech Software também não respondeu à reportagem sobre os motivos que levaram ao bloqueio do marketplace.

Já a Microsoft, em comunicado, afirmou que o uso de “softwares não genuíno resulta em maior risco de malware, fraude, exposição pública de suas informações pessoais e desempenho insatisfatório ou mau funcionamento”. A empresa ressaltou que “o Windows original é publicado, devidamente licenciado e suportado [por ela] ou por um parceiro confiável”. Mesmo quando ofertado, a empresa não solicitou acesso às chaves adquiridas pelo Canaltech nem deu informações sobre como elas podem estar sendo vendidas por preços tão mais baixos que os oficiais.

Com Agências

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