Comitê alertou Ministério da Saúde sobre risco de desabastecimento de remédios contra a Covid-19

O aviso foi feito em uma reunião na secretaria-executiva do ministério, em 29 de maio. Na ata, à qual a TV Globo teve acesso, consta uma orientação sobre o risco de desabastecimento: “Não fazer divulgação de dados”.

Levantamento do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) divulgado no fim de junho concluiu que estavam em falta medicamentos para pacientes internados nas UTIs de 21 estados e no Distrito Federal. Hospitais não conseguiam ter acesso a itens como sedativos, anestésicos e bloqueadores neuromusculares, usados nos pacientes que precisam ser intubados.

Em Canoas (RS), no início de julho, a prefeitura tentou buscar sedativos para leitos de UTI em clínicas veterinárias.

Atas do Ministério da Saúde revelam que Pazuello ignorou alertas sobre cloroquina

Atas do Ministério da Saúde revelam que Pazuello ignorou alertas sobre cloroquina

Cloroquina

O comitê também alertou o Ministério da Saúde para a possibilidade de o país ficar com excesso de cloroquina em estoque. A cloroquina e a hidroxicloroquina são medicamentos defendidos pelo presidente Jair Bolsonaro para o tratamento de Covid-19. Mas pesquisas científicas feitas no Brasil e no mundo vêm atestando que o remédio não tem eficácia para a doença.

Segundo a ata de uma reunião em 25 de maio, o comitê fez o seguinte aviso sobre a compra de cloroquina: “Devido a atual situação não é aconselhável trazer uma quantidade muito grande, pois caso o protocolo venha a mudar, podemos ficar com um número em estoque parado para prestar contas”.

O alerta foi dado cinco dias depois de o Ministério da Saúde atualizar o protocolo para Covid-19 no SUS e permitir a prescrição de cloroquina até para pacientes com sintomas leves.

Na primeira reunião de julho, o comitê registrou que o Ministério da Saúde tinha mais de 4 milhões de comprimidos de cloroquina em estoque.

Diversos países já proibiram o uso de cloroquina ou hidroxicloroquina em pacientes com Covid-19. A Organização Mundial de Saúde (OMS) também não recomenda a prescrição do medicamento.

A reunião do comitê do Ministério da Saúde registrou que alguns estados do Brasil recusaram os comprimidos, o que gerou o estoque.

Isolamento social

Na reunião do dia 25, o comitê também avisou que, sem isolamento social, o país poderia levar até dois anos anos para controlar a pandemia.

Na ata, que chegou até o ministro Eduardo Pazuello, os técnicos afirmaram que “toda pesquisa leva a acreditar que o distanciamento social é favorável para a população e o retorno da economia mais rápido”.

Disseram também que “medidas sociais drásticas dão resultados positivos” e que “sem intervenção, esgotamos UTIs, os picos vão aumentar descontroladamente, levando insegurança à população que vai se recolher mesmo com tudo funcionando, o que geraria um desgaste maior ou igual ao isolamento na economia”.

Apesar dos alertas da equipe técnica, o Ministério da Saúde adotou orientação contrária: não reforçou qualquer pedido para que os estados e municípios endurecessem as regras de isolamento social da população.

Três semanas depois dessa reunião, o ministério publicou uma portaria sobre o retorno das atividades, enfatizando seus benefícios, e reforçou que essa decisão cabe às autoridades locais.

O tema da portaria são medidas de prevenção, de controle e de mitigação da transmissão da Covid-19 para o retorno das atividades.

Ao contrário do que foi alertado pela equipe técnica, o texto, assinado por Pazuello diz que “retomar as atividades e o convívio social são também fatores de promoção da saúde mental das pessoas, uma vez que o confinamento, o medo do adoecimento e da perda de pessoas próximas, a incerteza sobre o futuro, o desemprego e a diminuição da renda, são efeitos colaterais da pandemia pelo sars-cov-2 e têm produzido adoecimento mental em todo o mundo”.

A portaria foi publicada em 19 de junho, mesmo dia em que o Brasil ultrapassou um milhão de casos confirmados. Neste dia, as mortes pela Covid-19 chegaram a 49 mil.

Com Agências

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