Com salário atrasado, técnica de enfermagem teme ficar sem dinheiro para saúde do filho doente

Técnica de enfermagem do Hospital da Mulher Heloneida Studart, em São João de Meriti, na Baixada, unidade estadual de saúde gerida pela Organização Social (OS) Instituto Gnosis, Ana Claudia de Oliveira Costa, de 41 anos, diz que está há quase três meses sem salário. Mãe de três filhos — um deles, de 22 anos, tem hidrocefalia, paralisia cerebral e má formação dos ossos —, ela já vê a comida rarear na despensa e tem dependido de amigos e parentes para que não falte o que comer. Ana contraiu Covid-19, curou-se, e agora não tem nem dinheiro para a passagem até o trabalho.
Ana Claudia de Oliveira teme perder o plano de saúde do filho, que tem necessidades especiais

Ana Claudia de Oliveira teme perder o plano de saúde do filho, que tem necessidades especiais Foto: FABIANO ROCHA / Extra— Estamos na linha de frente, deixamos nossos parentes em casa para cuidar da vida de outras pessoas. Pegamos a doença e, mesmo assim, vamos trabalhar. Eu me senti humilhada quando tive que ir para a rua bater panela por salário, um direito meu. Hoje, comemos com o dinheiro dos bicos do meu marido.

Assim como Ana Cláudia, muitos funcionários das unidades estaduais de saúde contratados por diferentes organizações sociais têm sofrido com salários e benefícios atrasados, falta de material de trabalho e rotina sobrecarregada. Segundo trabalhadores, há casos de profissionais ameaçados de despejo por não conseguirem pagar o aluguel.

Ana Cláudia, que trabalha no Hospital da Mulher há quase dois anos, lembra que o pagamento começou a atrasar após a saída de Edmar Santos do comando da Secretaria estadual de Saúde, há pouco mais de dois meses. Ele é acusado de envolvimento em fraude milionária na pasta.

— Eles (as OSs) pararam de pagar desde quando o Edmar saiu da secretaria. O dinheiro desapareceu. Estamos entrando no terceiro mês sem salário. Nesse tempo, peguei Covid tratando de pacientes no hospital — conta ela, que se preocupa com a possibilidade de perder o plano de saúde do filho especial.

A operadora já enviou uma notificação informando que o serviço será cortado por conta da falta de pagamento.

— A gente tem que escolher: ou paga o plano de saúde ou compra comida ou paga as contas de luz e água. Hoje, nossa preferência é pagar o plano de saúde para o meu filho, que precisa de balões de oxigênio, medicamentos, fraldas descartáveis. Só não faltou comida porque o meu esposo faz um serviço aqui e outro ali. Mas não é o suficiente. O Lucas precisa de alimentação especial. Ele come alguns legumes, carne quanto tem, mas está faltando tudo.

O município muda, a OS também. Mas os dramas se repetem. Técnica de enfermagem há mais de 20 anos, Giovana Vieira Maricá, de 45, é contratada há um ano e meio pela OS Instituto dos Lagos Rios, que gere o Hospital estadual Alberto Torres, em São Gonçalo. Há dois meses está sem salário.

— Hoje, tenho uma cesta básica que peguei no Ciep onde o meu filho estuda. Atualmente, vivemos de ajuda — diz Giovana, que vive com marido, dois filhos e uma neta de 3 anos.

Segundo ela, funcionários que fizeram protesto em frente à unidade por falta de salários têm sido demitidos.

— Já foram três colegas. Em mais de duas décadas de profissão, nunca passei por isso.

Protesto no Maracanã

Funcionários do Hospital de Campanha do Maracanã, gerido atualmente pela empresa pública do estado Fundação Saúde — em substituição à OS Iabas, envolvida em irregularidades em investigação — fizeram uma manifestação na manhã de ontem em frente à unidade para cobrar os salários atrasados. O grupo reclamou das mais de 60 demissões nos últimos dias e protestou contra a falta de pagamento.

— Todos os trabalhadores estão com os salários atrasados. Nos últimos dias, mais de 60 funcionários foram mandados embora e não receberam seus salários que estavam atrasados, as verbas rescisórias e nenhum tipo de satisfação. Essas demissões são de funcionários de várias OSs. Hoje, temos problemas com todas as organizações — afirma a enfermeira Líbia Bellusci, presidente do Sindicato dos Enfermeiros do Rio.

De acordo com ela, na segunda-feira, enfermeiros e técnicos de enfermagem votarão proposta de greve geral.

Em nota, o Iabas, contratado inicialmente para gerir os sete hospitais de campanha do estado, afirmou que já encaminhou à Fundação Saúde a folha de pagamento dos colaboradores referentes ao mês de junho. Já a Secretaria estadual de Saúde disse “que a documentação inicialmente encaminhada pela OS apresentava inconsistências e que a Fundação Saúde cobrou correções”. A secretaria disse ainda que “os pagamentos só vão ser liberados quando comprovada a regularidade da prestação de contas”.

Sete organizações sociais contactadas pelo EXTRA — Instituto dos Lagos Rio, Associação Mahatma Gandhi, Instituto Diva Alves do Brasil, Iabas, Instituto Solidário e Instituto D’Or — afirmaram estar desde maio sem repasses do estado. A alegação, segundo as OSs, é a revisão dos contratos firmados na gestão do ex-secretário Edmar Santos.

O Instituto Gnosis alega que não vem recebendo os recursos do estado “relativos ao contrato do Hospital da Mulher” e que tenta “insistentemente junto à Secretaria de Estado de Saúde a regularização dos repasses contratuais” e que o pagamento dos vales-transportes dos funcionários está em dia.

Secretaria responde

Já a Secretaria estadual de Saúde diz que só cinco unidades geridas por OS estão com pagamentos em atraso. Em todos os casos, segundo a pasta, “foram encontrados problemas contratuais, administrativos e financeiros que impedem os repasses no momento, sob pena de o gestor cometer irregularidade”.

A SES diz que já receberam o pagamento de junho as OSs responsáveis pelas seguintes unidades: Hospital da Mãe (Gnosis), Hospital Alberto Torres e Hospital João Batista Cáffaro (Lagos Rio), Hospital Carlos Chagas (Lagos Rio) e Hospital Azevedo Lima (Instituto Sócrates Guanaes). “Além desses, a SES informa que foram liberados na data de hoje (ontem) os pagamentos para Hospital da Mulher (Gnosis), Hospital da Criança (Instituto D’Or) e Hospital Getúlio Vargas (Instituto Solidário)”, diz em nota. Os valores deverão estar nas contas das OSs até semana que vem.

Com Agências

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