Cineasta Otto Guerra entra para Academia de Hollywood: ‘Achei que era pegadinha’


Diretor de animação premiado, Guerra está entre os mais de 800 profissionais de cinema anunciados pela academia na terça. Ele acredita que um Oscar para o Brasil daria maior ‘poder de barganha’. Otto Guerra foi homenageado com o Troféu Eduardo Abelin no Festival de Gramado

O cineasta e animador Otto Guerra está entre os brasileiros anunciados como novos membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que realiza o Oscar. Diretor dos longas “Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock and roll”, “Até que a Sbórnia nos Separe” e o mais recente “A Cidade dos Piratas”, Guerra é um dos mais de 800 profissionais do cinema anunciados na última terça-feira (30), pela entidade.
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Otto não sabe como foi parar na lista, como contou ao G1 em entrevista nesta quarta (1). Ele deverá votar nas categorias de longa e curta de animação, gênero em que é um dos principais realizadores do Brasil, e que lhe rendeu o reconhecimento pelo troféu Eduardo Abelin, no Festival de Cinema de Gramado de 2017.
Isolado há mais de 100 dias devido ao coronavírus, Otto conversou com o G1 sobre como a diversidade pode ajudar na indústria de Hollywood, e comentou as duas produções atuais da Otto Desenhos Animados: o primeiro filme infantil da produtora, que conta a história de uma menina que, diferente das fábulas, é quem salva um príncipe, e um “road movie a pé”, sobre um rapaz, filho da dona de um bordel no sertão brasileiro, que não quer saber a identidade do seu pai, e acaba encontrando ele dentro de uma baleia.
“São filmes com roteiro estruturado e que podem até ter público”, resumiu o cineasta, na entrevista.
“A Cidade dos Piratas”, mais recente produção de Otto Guerra
Divulgação
Como que te escolheram para ingressar na Academia? É um convite ou simplesmente anunciam?
Eu fiquei sabendo ontem [terça] de noite, eu não esperava, não tinha ideia do processo do convite, mas pelo que sei é alguém lá dentro que indica, tem que ter duas indicações. Inclusive ontem quando recebi a notícia achei que era uma brincadeira, uma pegadinha (risos).
Esse ano pelo que li eles tão abrindo pra convidar novos membros que façam parte de uma diversidade maior, é uma arejada no universo do audiovisual. É muito bem vindo, eu fiquei feliz, evidente, porque conta como currículo. É uma espécie de legitimação. Vou descobrir como aconteceu, mas não sei ainda.
O fato do “Parasita” ter ganho [o Oscar de melhor filme] é uma novidade interessante, de novas culturas [premiadas pelo Oscar] e essa abertura vem num bom momento.
Essa pluralidade que a Academia diz estar buscando, como tu acha que isso impacta na produção cinematográfica?
Surgir filmes como Parasita ou Bacurau são fenômenos novos, e que atingem um grande público. A produção independente do mundo entrar nessa porta industrial que é Hollywood pode ser uma coisa boa pros dois lados, porque sai um pouco da fórmula do cinema americano, que tem mais ou menos de seis a oito tipos de padrão de roteiros. Acho que é bom para eles e para nós, sem dúvida.
O Oscar do ano que vem foi adiado em função do coronavírus. A pandemia chegou a afetar o trabalho do estúdio de alguma forma?
A animação pode ser feita a distância. A gente questiona essa parada de ter de estar todo mundo junto, essa obrigação de isolamento não afeta muito. Até o pessoal tá reclamando que trabalha mais de casa do que na produtora. A gente vai repensar o modelo todo.
No que vocês estão trabalhando agora?
A gente tá com uma produção de vento em popa, eu diria. Temos dois longas em produção. Entregamos uma série pro Canal Brasil, “Rocky e Hudson, os Cowboys Gays”, estreia em agosto, baseada nos quadrinhos do Adão Iturrusgarai. Também estamos trabalhando num projeto chamado Núcleos. Já captamos mais de 80% dos valores. Eu já fiz coproduções com outros países, e [o convite para] a academia pode dar um plus a mais para conseguir mais coproduções fora do Brasil.
Esse é o caminho para conseguir dinheiro para o audiovisual atualmente?
O Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e a Ancine viraram um pandemônio, tá meio paralisado, alguns filmes não tão recebendo, virou uma grande confusão. Como vai seguir é uma grande dúvida.
O que se sabe é que o audiovisual é uma grande indústria, 9 mil empresas, 300 mil empregos diretos, como vai se solucionar isso é uma pergunta e tanto. Tá todo mundo apavorado, inclusive eu. Tô tentando essas portas que é dinheiro de coprodução, de outros países. É bem assustador.
Voltando ao Oscar, com essa abertura e diversidade entre os membros, aumentam as chances do Oscar finalmente vir para um filme brasileiro? Tem alguma produção promissora?
Sem dúvida, vai ter mais chances, porque eu acho que tem muito filme brasileiro de animação que já merecia ter ganhado o Oscar há tempos. “Guaxuma” por exemplo, da Nara Normande. Aumenta sim a chance de ganhar, se for bom, evidente.
Na animação tem algumas produções que devem ser terminadas, não sei se vai ter algum longa, mas sei que tem curtas muito bons em andamento. Tem um do Alê Abreu, “As Criaturas do Bosque Encantado”. Ele [o diretor Alê Abreu] foi indicado [ao Oscar] em 2016 com “O Menino e o mundo”. A animação brasileira virou uma potência no mundo, a gente tá exportando séries e produzindo muita coisa, deve ter uns 20 filmes em produção. E se vier um Oscar pro Brasil, a gente consegue mais força de barganha.
E se tu ganhasse um Oscar? Como seria?
Não chega a ser uma possibilidade né, porque pelo menos por enquanto nossos filmes são adultos, underground, pouco provável. Se bem que a gente tá produzindo dois filmes que saem desse universo, que são roteiros bem construídos e que podem ter até publico.
Eu não confio muito na minha estabilidade de fazer um filme comportado. Tudo pode acontecer, até nada. Mas seria ótimo ter um Oscar, óbvio né.

COM AGÊNCIAS

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