Chefe da Cruz Vermelha: “Bolsonaro subestimou vírus e vemos a consequência”

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Cemitério Parque Tarumã, em Manaus - Bruno Kelly

O Brasil está pagando um preço elevado pela divisão criada por sua classe política e pelo comportamento do presidente Jair Bolsonaro de minimizar a crise. A constatação é de Francesco Rocca, presidente da Federação Internacional da Cruz Vermelha, que avaliou a resposta à pandemia da covid-19 na América Latina.

“Vemos com preocupação o que ocorre com o Brasil”, disse o italiano, considerado como uma das personalidades mais experientes no campo de emergências sanitárias. “Infelizmente, acho que Bolsonaro subestimou as consequências da covid-19 e estamos vivendo as consequências”, afirmou o italiano. “É muito triste”, lamentou.

Segundo ele, ao colocar a economia como prioridade, a resposta no Brasil mostrou suas falhas. Dados da OIT nesta semana também confirmam que, enquanto o vírus não for barrado, a situação econômica e social deve apenas se deteriorar.

“É o exemplo perfeito de quando a economia recebe prioridade sobre a saúde da população”, afirmou.

Outro fator que pesou, segundo o chefe da Cruz Vermelha, foi a divisão criada pela classe política. “Uma das lições que aprendemos é que políticos precisam aprender a falar com uma só voz”, disse. Hoje, são 1,4 milhão de casos no Brasil, o que coloca o país como um dos epicentros no mundo.

Rocca, porém, insiste que a crise não atingiu seu pico e alerta que o período de inverno na América do Sul pode ampliar as contaminações.

“Estamos pagando um preço elevado de não seguir o que diz a comunidade científica”, disse o presidente da Cruz Vermelha. “Precisamos ouvir a comunidade científica. As consequências estão aí”, disse.

A esperança de Rocca é de que os governos sul-americanos e de outras partes do mundo finalmente entendam a importância de investir na infra-estrutura de Saúde. “Falamos sobre isso, gritamos até. Mas espero que, ao deixar a crise, vamos aprender com o que ocorreu”, afirmou.

Ridículo

O italiano não poupa críticas a líderes que, segundo ele, politizaram o vírus. “Alguns dos líderes, não apenas no Brasil e EUA, mas em muitos países foram irresponsáveis e não ouviram a ciência”, disse.

“Até o vírus foi politizado. Isso é ridículo. No futuro, vamos contar isso como a parte mais triste dessa crise”, lamentou.

Presidente de uma entidade que tradicionalmente atua com neutralidade política, Rocca insiste que seus comentários são feitos com base em fatos. “Não pode ser neutro quando há mortos”, completou.

COM AGÊNCIAS