Cães de busca e salvamento dos Bombeiros de Santa Catarina fazem serviço noturno e são referência

Em junho, o Página 3 publicou reportagem sobre o Grupo de Operações, Resgate e Salvamento com Cães (GORSC), que tem unidade em Balneário Camboriú. Na ocasião, o coordenador operacional do grupo em Balneário e também bombeiro voluntário, Andersom Gutz, citou uma ocorrência atendida em Nova Trento, porque os Bombeiros não entraram na mata à noite.

Parizotto (colete vermelho) e sua equipe

Esta semana, o Tenente Coronel Walter Parizotto, coordenador do Serviço de Busca e Resgate com Cães do Corpo de Bombeiros de Santa Catarina, entrou em contato com a reportagem para informar que não existe o protocolo que impede a atuação noturna dos bombeiros em situações como a descrita na reportagem de junho. Ele afirmou que o caso será investigado.

Serviço com Cães faz buscas noturnas

A matéria publicada pelo Página 3 em 26 de junho apresentou o trabalho do GORSC em Balneário. O coordenador Andersom citou um caso ocorrido há três meses em Nova Trento, onde os cães do Grupo trabalharam a pedido da Polícia Militar, quando um adolescente de 16 anos, autista, se perdeu na mata e anoiteceu. Andersom disse para a reportagem que, quando anoitece, os bombeiros têm um protocolo onde não trabalham nesse período na mata.

Porém, o Tenente Parizotto contestou a informação, afirmando que é nesse período que as ações de busca com cães são intensificadas.

Parizotto lembrou que na região de Balneário os Bombeiros possuem cães certificados em Brusque, Biguaçu, Blumenau e Itajaí, mas afirmou que o caso será investigado para apurar por qual motivo o GORSC foi chamado naquela ocasião e não os cães da corporação.

“Priorizamos os cães para o trabalho noturno, inclusive eles realizam provas de certificação e treinamentos que demonstram a capacidade que possuem para trabalhar a noite. Em Nova Trento há cães próximos, como em Governador Celso Ramos e também Itajaí e Brusque”, explicou.

O coordenador do GORSC, Andersom, foi procurado e confirmou que já atenderam duas ocorrências noturnas por conta da ausência dos Bombeiros, uma em Nova Trento (a citada na matéria do Página 3 por ele) e outra em Balneário. “Na ocorrência de Nova Trento em específico o próprio Chefe de Socorro dos Bombeiros informou que eles não entram na mata à noite devido aos riscos para a guarnição, e foi justamente por causa desta declaração que a Polícia Militar nos acionou. Ao chegar no local conversei com os policiais, eles informaram que nos acionaram porque os Bombeiros não queriam adentrar na mata e os policiais ficaram sem ação, sem ter o que oferecer de recursos para a família, e por isso nos acionaram”, informou

Os cães do Corpo de Bombeiros

Atualmente, o Corpo de Bombeiros de Santa Catarina conta com seis cães em atuação: Iron, em Xanxerê, Hunter, em Curitibanos, Chewbacca, em Canoinhas, Bravo, em Blumenau, Zaara em Brusque e Marley na Grande Florianópolis. Há mais seis em treinamento. A ideia é até 2021 esse número chegar a 15, para que cada batalhão do Estado tenha pelo menos um cão – que são todos da raça Labrador, sendo a sexta geração.

“Distribuímos eles pelo Estado, pois hoje não temos um canil centralizado, a exemplo de São Paulo. Eles foram distribuídos logisticamente para que estejam a uma hora no máximo para chegarem em todas as cidades do Estado”, comenta o Tenente Coronel Parizotto.

Ice ficou famoso

Um cão que ficou conhecido nacionalmente foi o Ice, de Itajaí, que se aposentou em 2018. Ele é filho de um cão do Coronel, e é avô de alguns que estão em atividade.

“Tentamos manter a linhagem de cães, fizemos um estudo genético para saber se eles podem ter algumas doenças, como cegueira e displasia. Hoje temos somente duas fêmeas que podem cruzar. Uma das netas do Ice teve ninhada ano passado e distribuímos os filhotes dela por todo o Estado, e também para outros lugares do Brasil. Já enviamos cães até para a Argentina e Chile, mas a prioridade é atender SC. Se há filhotes excedentes, compartilhamos”, destaca.

Estado é referência

O coordenador do Serviço aproveita para lembrar que o cão é um ser vivo e que pode ser afetado por problemas de saúde, como diarreia, ou as fêmeas podem entrar no cio, o que acaba intervindo no trabalho; mas afirma que eles são fundamentais, tornando as buscas mais rápidas, eficientes e econômicas: um cão tem a capacidade de varrer um espaço assim como uma equipe de 30 homens.

“Santa Catarina é referência porque, infelizmente, somos um Estado severamente castigado por desastres naturais e quem trabalha mais acaba se tornando mais apto. Por exemplo, a enchente de 2008 foi uma grande escola, aprendemos muito e em cima dos erros mudamos nossa estrutura de trabalho. Recebemos um investimento significativo, somos o único Estado do país que tem a estrutura para formação de cães, que fica em Xanxerê e realiza cursos duas vezes por ano”, destaca. Os cães são preparados para buscar pessoas vivas e também restos mortais, em mata, área urbana, deslizamentos e até afogamentos.

Certificação internacional

Em 2006, os Bombeiros se filiaram à Associação Internacional de Cães de Busca de Resgate, e desde então todos os que estão em trabalho possuem certificação nacional e internacional. Para entrar em atividade basta ter a nacional, mas o Corpo de Bombeiros de SC foca também na internacional.

“O treinamento não é um processo simples, começa pela qualificação do homem, há toda uma estrutura logística e o cão é uma ferramenta de um especialista em busca, e por isso precisamos de determinados níveis de certificação, uma garantia de que o cão está habilitado e pronto para a atividade, pois é um trabalho delicado, a vítima não pode ficar para trás. Não podemos brincar com isso, há vidas em jogo”, pontua.

Segundo Parizotto, os cães levam pelo menos um ano e meio para começarem a trabalhar e há ainda a dificuldade para encontrar o condutor, já que o cão é de responsabilidade dele (inclusive mora com o condutor).

“De todos os bombeiros que fazem o curso, conseguimos aproveitar 20% e é normal. Vou me aposentar em dois anos e sonho em conseguir ver mais cães em serviço. Um pré-requisito para eles trabalharem é gostar de pessoas, porque estarão procurando alguém que nunca viram, em um lugar onde nunca estiveram. A agressividade é um critério para ser retirado do trabalho. Em paralelo aos serviços de busca, também desenvolvemos terapias assistidas, como em hospitais e na APAE, é um trabalho fundamental para socializa-los”, completa.

Bombeiro e cão de busca em ação

Um dos cães após ação de busca

Os seis cães na ativa

Ice ficou famoso, mas já se aposentou

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