Bolsonaro desiste de lançar o programa Renda Brasil

Repercussão desastrosa de estudos do governo para criar um programa substituto do Bolsa Família levaram o presidente a sepultar o projeto e a desautorizar a equipe econômica. Bolsonaro desiste de lançar o programa Renda Brasil
A repercussão desastrosa de estudos do governo para criar um programa substituto do Bolsa Família levou o presidente Jair Bolsonaro a sepultar o projeto e a desautorizar a equipe econômica.
No domingo (13), o secretário especial de Fazenda, Waldery Rodrigues, deu uma entrevista exclusiva ao repórter Alexandro Martello, do G1, e disse que a área econômica do governo Jair Bolsonaro apoia que benefícios previdenciários, como aposentadorias e pensões, sejam desvinculados do reajuste do salário mínimo e congelados nos próximos dois anos. A “medida pouparia R$ 17 bilhões em 2021 e R$ 41,5 bilhões em 2022, ou seja, R$ 58,5 bilhões nos dois anos”.
A maior despesa da União é com a Previdência: pela lei, aposentadorias e pensões têm reajustes toda vez que o salário mínimo é corrigido. O reajuste é anual e não pode ser inferior à inflação do ano anterior. Benefício maior que o mínimo não tem essa vinculação.
A equipe econômica também estudava mudar os critérios para o seguro desemprego. De acordo com o secretário, a proposta era exigir mais tempo de carteira assinada para liberar o recurso e com menos parcelas. Na prática, isso iria restringir o acesso ao benefício e reduzir as despesas do governo.
Nesta terça, o jornal Folha de São Paulo publicou outra medida em estudo. O “governo quer cortar R$ 10 bilhões em auxílio para idosos e pobres com deficiência”, o BPC, Benefício de Prestação Continuada. Segundo o jornal, “o governo Jair Bolsonaro planeja endurecer regras e revisar quase dois milhões de benefícios”.
Todos esses estudos da equipe econômica tinham objetivo de garantir verba para o Renda Brasil que substituiria o Bolsa Família. O benefício passaria dos atuais R$ 190 em média para cerca de R$ 300 a partir de janeiro, dependendo, claro, de aprovação do Congresso.
Mas os estudos repercutiram mal. E Bolsonaro reagiu em rede social: proibiu a equipe de falar do Renda Brasil e ameaçou com cartão vermelho o autor da proposta de reduzir ou congelar benefícios sociais para bancar o novo programa.
“Acordei hoje surpreendido por manchetes em todos os jornais. O Globo: ‘Por Renda Brasil governo quer congelar aposentadorias’; ‘Economia propõe congelar aposentadoria para criar Renda Brasil’, O Estado de S.Paulo; Folha de S.Paulo, essa é a mais terrível, né: ‘Governo que cortar R$ 10 bi em auxílio para idosos e pobres com deficiência’; Correio Braziliense: ‘Em prol do Renda Brasil, governo estuda suspender reajuste dos aposentados’. Eu já disse há poucas semanas que jamais vou tirar dos pobres para dar aos paupérrimos. Quem porventura vier propor uma medida como essa, eu só posso dar um cartão vermelho para essa pessoa. E última coisa, para encerrar: até 2022, no meu governo, está proibido falar a palavra Renda Brasil. Vamos continuar com o Bolsa Família e ponto final”, disse Bolsonaro.
A essa altura, o secretário especial de Fazenda, Waldery Rodrigues, nem apareceu na entrevista que estava na agenda dele. Só o secretário de Política Econômica, Adolfo Sachsida, falou sobre os dados de inflação e PIB. Ele criticou a divulgação de medidas ainda em estudo no governo.
“O que me parece que presidente Bolsonaro coloca corretamente é que as discussões não podem ser públicas. Você não pode ficar lançando ideias publicamente. Acho que foi isso que ele deixou claro”, afirmou Adolfo Sachsida, secretário de Política Econômica.
O ministro Paulo Guedes foi chamado pelo presidente antes das 9 horas. Bolsonaro reclamou bastante, parou para gravar o vídeo e, depois, continuou a conversa com Guedes. Na sequência, Guedes chamou ao Planalto o secretário Waldery. Ele e o presidente tiveram uma conversa com o secretário.
Em uma live, depois do almoço, Guedes declarou que o cartão vermelho de Bolsonaro não foi para ele.
“O cartão vermelho não foi para mim. Esclarecendo todo mundo, eu conversei com o presidente hoje cedo, conversamos sobre as notícias dos jornais. Lamentei muito essa interpretação, não é”, afirmou Paulo Guedes, ministro da Economia.
O ministro chamou o episódio de barulheira.
“Eu estava conversando lá com o presidente quando ele começou a gravar aquilo. Quando acabou, nós continuamos conversando sobre tudo isso. Conversamos sobre esses estudos, sobre o desejo político dele, presidente eu sempre escuto. As possibilidades técnicas, que ele sempre me escuta também. Há um clima, eu repito, o presidente fala que eu não entendo de política e ele mesmo fala que não entende de economia. A gente está conversando sempre. Aí o presidente tem o direito também politicamente de dar uma resposta a altura, falando ‘não é isso. Vocês estão dizendo que o Renda Brasil é tirar renda de pobre para dar a pobre? Então acabou. Pronto. Está aí a resposta política.”
Na mesma live, Guedes confirmou que o governo estuda, sim, a desindexação dos gastos, que alcançariam o benefício de prestação continuada. Mas ressaltou que são estudos que vão dar subsídio para decisões políticas.
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