Ao invés de um “novo normal”, um “normal melhor” para educação

“Para uma educação com mais qualidade seria preciso realmente mudar o que os alunos aprendem. Eles aprendem coisas demais superficialmente. A mudança de longo prazo deveria ser aprender menos coisas com mais profundidade. Um aluno não precisa aprender toda matemática, mas precisa aprender a pensar como matemático, a pensar como cientista. É preciso liberar o currículo e focar nas ideias essenciais”.

Eu não poderia concordar mais com Andreas Schleicher, diretor da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, que participou há poucos dias de live no evento Educa Week. E ele disse mais: “Os alunos vão embora da escola porque o que eles aprendem não lhes parece relevante para vida. Este é o grande desafio. Ir além dos resultados cognitivos, ter aprendizagem social, emocional, temas que os alunos valorizem. Encontrem seus alunos e os tragam de volta para escola. O ensino tem que ser mais relevante. Ele é muito focado no sucesso acadêmico. Este não é o único destino possível”.

As reflexões de Andreas me impactaram por alcançar uma dimensão que vai muito além dos desafios que as escolas irão enfrentar no retorno programado para setembro próximo, como as medidas sanitárias e dar conta de ensinar todo conteúdo para 2020 não ser um ano perdido.

O principal legado que a pandemia irá deixar na educação não está tão somente na aceleração do uso de tecnologias e na pressão sobre os professores para aprenderem da noite para o dia como preparar suas aulas de forma remota. O desafio que poderá gerar efetivamente uma transformação profunda está em criar uma nova educação que considere, claro, o uso de novas ferramentas tecnológicas e metodologias de ensino, mas também uma revisão sobre o que devemos ensinar para nossos alunos que realmente os cative e os prepare para um mundo a cada dia mais repleto de incertezas.

O Brasil enfrenta desafios históricos na educação com a falta de recursos de toda ordem e professores desvalorizados. E neste momento dá um importante passo com a aprovação no Congresso da continuidade e novas regras do Fundeb (Fundo Nacional da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação), elevando a participação da União no financiamento do fundo para 23% até 2026.

O projeto de lei da Deputada Dorinha Seabra, que segue agora para o Senado, é fundamental para garantirmos a remuneração dos professores, que na maioria dos municípios não recebem o piso salarial básico, e investirmos na formação dos docentes, especialmente agora que se sentem perdidos tendo que forçadamente desenvolver competências digitais para criar e dar aulas remotamente.

Pesquisa: maioria das escolas não está preparada para volta às aulas

Realizamos aqui no Instituto Crescer com 1.367 profissionais de educação de diferentes regiões do Brasil, envolvendo mantenedores, diretores, coordenadores, professores e representantes de instituições de ensino públicas e privadas da Educação Básica ao Ensino Superior, a “Pesquisa Volta Às Aulas Pós-Pandemia”. A principal conclusão foi de que a maioria das escolas brasileiras não está preparada para esse retorno às atividades no contexto do “novo normal”.

Segundo nosso estudo, apenas 17,7% das escolas públicas e 36,2% das particulares se dizem preparadas para suportar o momento atual e o pós-pandemia. Os resultados evidenciam que as instituições já não vinham aplicando tecnologia de maneira incisiva em seus processos de aprendizagem, antes das medidas de distanciamento social, o que acabou agravando a situação.

De forma geral, as escolas vêm agora buscando alternativas para dar continuidade ao que vinham fazendo antes da quarentena, mas estão correndo contra o tempo. Em 80,5% das instituições públicas e 72,6% das privadas, os professores ainda procuram soluções para a oferta de ensino remoto.

Poucas delas vinham qualificando os professores em soluções de ponta. Foi a pandemia que as forçou a dar o primeiro passo, ou seja, investir em tecnologias digitais e desenvolver novas habilidades em seus profissionais. Obviamente, se deram melhor aquelas que já possuíam uma estrutura mais organizada e essas tecnologias integradas à rotina escolar.

Isto fica claro ao se dar voz aos docentes. Apenas 5,4% dos professores em escolas públicas e 17,3% nas particulares se dizem preparados para trabalhar de forma online. Quando questionados sobre como será o retorno às suas instituições, 55,5% dos profissionais revelam não ter ideia de como seguirão. O cenário mais desanimador está na rede pública de ensino, onde 53,9% não têm ideia do que vem pela frente. Na rede privada, 46,8% acreditam que terão a oferta de ensino semipresencial e rodízio entre os alunos, enquanto na pública esse número é de apenas 27,7%.

Mas não é só uma questão de infraestrutura. Passado o período de emergência, em que todos tiveram que buscar uma forma de continuidade, agora é preciso associar a infraestrutura ao fazer pedagógico, ou seja, como adaptar o currículo e a forma de avaliação num ano atípico e que pode influenciar em definitivo como se dará o processo de aprendizagem no médio e longo prazos.

A pesquisa agrupou as instituições respondentes em grupos, segundo suas condições de infraestrutura: as preparadas para o momento atual, as que estão investindo agora e aquelas que descartam fazer novos investimentos no presente. Essa posição condiciona uma série de respostas conforme se pode verificar no quadro abaixo. Por exemplo, aqueles que já têm infra montada, estão dedicados a repensar o currículo e as formas de avaliação, enquanto o terceiro grupo concentra um alto contingente de respostas de que isso “vai passar” e pouco precisará mudar.

 (Instituto Crescer/Divulgação)

O futuro demanda solidariedade

A questão de planejar o amanhã não é corriqueira e o mundo todo está debruçado sobre isso. Num contexto de ensino híbrido, com aulas parte presenciais, parte remotas, os alunos precisarão desenvolver de maneira mais consistente habilidades como autodisciplina para estudar em casa, por exemplo. Isso exige alterações no foco dos professores, que precisam ter tempo e apoio para serem treinados no uso das tecnologias digitais.

E não podemos esquecer os fatores sociais. Como tornar padrão o ensino a distância quando uma parcela considerável da população mundial tem acesso precário à internet? No Brasil, a penetração da rede nos domicílios é de 67% em média – na classe A é de 99%, enquanto na D e E despenca para 40%.

No caso específico do Brasil, a pandemia gerou rupturas familiares importantes. Muitas crianças e jovens perderam pais ou mães arrimos de família para a Covid-19. O isolamento social e o freio de arrumação na economia deixaram muita gente desempregada e muitos autônomos sem renda. Isso certamente terá um efeito na evasão escolar, que já é alta no Brasil, especialmente no ensino médio.

O maior desafio que temos adiante é planejar as novas estratégias de ensino. Pelo que temos visto, até aqui a educação remota foi emergencial e não uma solução. É preciso criar redes colaborativas entre gestores, professores e coordenadores para que se compartilhem as boas práticas a fim de que todos possam evoluir.

Um dos alentos que a pesquisa nos trouxe é saber que ao menos um terço dos respondentes estão redirecionando o foco do currículo para o desenvolvimento de competências e habilidades, tais como colaboração, interação, resolução de problemas e pensamento crítico. Outro ponto positivo é que a pandemia valorizou os professores, cujo papel fundamental foi reconhecido pelos pais e mães que estão tendo de lidar com as crianças e jovens em casa nestes tempos de isolamento social.

Podemos dizer que a construção do “novo normal” passa pelo afastamento cada vez maior das instituições de ensino de seu papel de repositório de conteúdo para um contexto de construção de saberes e competências, inclusive éticas, a fim de que nossas crianças e jovens possam estar melhor preparados para um futuro que ainda lhes parece incerto e sem sentido. Mais do que nunca, a escola precisa repensar seu papel.

Como também bem pontuou Andreas: “quando as crianças voltarem às escolas irão encontrar um mundo diferente. Os professores terão o grande desafio de ser não somente instrutores, mas bons mentores, facilitadores. O ensinar não é um processo transacional, é relacional. É preciso conhecer os sonhos e aspirações dos alunos”.

Os pensamentos de Andreas encontram eco em duas outras importantes autoridades na área de educação.

Em live no Bett Educar, Maria João Horta, Subdiretora Geral do Ministério da Educação de Portugal, reforçou a importância da solidariedade para garantir a continuidade das aulas neste período de pandemia. “Criamos um movimento envolvendo a articulação com a sociedade civil, empresas e escolas para identificar alunos sem acesso a tecnologia para receber equipamento doados pelas fundações das empresas. Buscamos garantir que todos tivessem equipamentos para estudar. Fizemos aulas também pela televisão em um canal público com horários divididos entre as diferentes faixas etárias. Criamos um canal aberto com as escolas para os diretores reportarem situações de maior vulnerabilidade e, com o apoio de associações e autoridades locais, encontrar soluções para os problemas dos alunos e suas famílias. Nossa luta é para não perdermos alunos”.

Já o Ministro da Educação de Singapura, Mr Ong Ye Kung, relatou em live como o país enfrentou a chegada do Covid com muito foco e planejamento. “Não fechamos as escolas. Elas foram mantidas abertas e seguras. Quando foi decretado o lockdown mantivemos o ensino através de ‘home-based learning”. O ensino remoto pode ser útil para estimular o aprendizado autônomo. A educação a distância não pode substituir a escola, que será sempre necessária para socialização e transmissão de valores. Ela tem que ser complementar a presencial e não ser empacotada em aulas e no currículo. Na educação online o estudante deve ser livre para estudar o que desejar, ter sua curiosidade incentivada e ser motivado a construir sua própria jornada de aprendizagem”.

Além de atacarmos as questões socioeconômicas e investirmos na valorização e formação dos professores, que são urgentes e estão em pleno debate com a votação da PEC 015/2015, precisamos também ouvir e praticar as palavras de especialistas no assunto como Andreas, Maria João e Mr Kung. Só assim a pandemia deixará uma herança valiosa para educação. De outra forma, perderemos a chance de fazer do “novo normal” um “normal melhor”.


Para baixar a pesquisa do Instituto Crescer acesse https://bit.ly/2ObkmWw.

Confira abaixo mais algumas descobertas:

  • Para 89,5% dos profissionais, o momento atual vem contribuindo para que os professores adquiram competências digitais.
  • A respeito das práticas organizadas durante a oferta de educação remota, 60,8% as consideram como um fator propulsor para um repensar pedagógico.
  • A maioria (60,1%) acredita que essa experiência acelerou o processo de inovação educacional.
  • Considerando o cenário pós-pandemia, 56,8% acham que os professores passarão a ver mais valor nas tecnologias digitais.
  • Entretanto, 47,2% acreditam que se não for criada uma estratégia de diálogo permanente sobre o tema, os recursos tecnológicos serão facilmente deixados de lado.
  • Hoje, apenas 5,4% dos professores de escolas públicas e 17,3% dos profissionais de instituições particulares se dizem preparados para trabalhar de forma online.
  • Apenas 19% das escolas estão preparadas para trabalhar de forma online.
  • Em relação ao nível de infraestrutura tecnológica, 69% das escolas públicas e 60% das escolas privadas afirmam que vêm realizando investimentos.
  • No que diz respeito ao currículo, 51,6% das instituições de ensino farão ou já estão fazendo uma revisão com foco em aspectos essenciais; 32,5% decidiram focar menos no currículo e mais no desenvolvimento de competências e habilidades.
  • Para avaliar os alunos, 63,9% dos professores estão experimentando novos métodos.

(*) Diretora do Instituto Crescer e Doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) com especialização em tecnologias digitais aplicadas à educação