Venezuela: vereador teria morrido afogado sob tortura, afirma promotora

CARACAS – A versão do governo venezuelano sobre o suposto suicídio do vereador de oposição Fernando Albán vem se desmanchando com o passar dos dias, mesmo com todo o peso da propaganda oficial. Enquanto autoridades se embaralhavam em suas versões sobre a morte do político, uma promotora oposicionista afirma que Albán foi afogado sob tortura.

O procurador-geral da Venezuela, Tarek William Saab, deu na quarta-feira uma entrevista coletiva para sustentar que Albán “correu para uma janela panorâmica num corredor e se atirou” do décimo andar da sede dos Serviços Bolivarianos de Inteligência (Sebin).

alban Anteriormente, Saab afirmara que que o vereador oposicionista pedira permissão para ir ao banheiro e se jogou pela janela. E o ministro do Interior, Nestor Reverol, escrevera no Twitter que Albán estava na “sala de espera do Sebin quando se jogou por uma janela das instalações e caiu no vazio, o que causou a sua morte”.

Na coletiva, porém, Saab mudou sua versão inicial.

— Eu nunca disse que ele se jogou do banheiro — afirmou, contradizendo suas palavras de dois dias atrás.

O vereador estava sendo investigado por “atos desestabilizadores comandados do estrangeiro”, afirmou Reverol em seu tuíte.

79289866_An image of the opposition lawmaker Fernando Alban and Jesus Christ is seen over his coffin.jpgDe acordo com o procurador, a autópsia determinou como causa da morte de Albán “traumatismo craniano e facial severo, choque por massiva perda de sangue, e traumatismos no tórax, abdômen e pelve”. Não teriam sido detectados sinais de maus tratos antes da queda, disse Saab.

— Essa história de que o afogaram, asfixiaram, de que já estava morto antes de cair não passa de uma mentira deslavada.

Entre os que apostam que Albán foi assassinado está a antecessora de Saab no cargo, a promotora rebelde Luisa Ortega, colaboradora próxima de Hugo Chávez.

— Tenho informações de dentro do governo de que ele morreu afogado, pois estava sendo torturado com um saco — disse Luisa.

Seu testemunho contundente corrobora o dos colegas do vereador, que sustentam que ele foi torturado desde domingo à noite por agentes que queriam forçá-lo a gravar um vídeo contra seu líder político, Julio Borges.

Autópsia sob suspeita

A autópsia está sob suspeita porque um dos médicos que assinam o laudo, Arnoldo Pérez, trabalha em serviços comunitários e se define como um revolucionário fervoroso em suas redes sociais, sendo um feroz crítico dos “fascistas” da oposição. E o exame ainda teria sido adulterado por ordem de Reverol, denunciou na televisão William Jiménez, ex-coordenador de investigações no necrotério da capital venezuelana.

— Havia água nos pulmões, mas o laudo foi modificado para apontar outra coisa — afirmou Jiménez.

Enquanto isso, o jornal governista “Vea” afirmou que Albán teria uma “vida oculta”, pois havia muitos vídeos pornográficos no celular. A reportagem diz ainda que a Sebin estava investigando “práticas de pedofilia”.

— Foram achados 2.084 vídeos no celular de Albán, que podem explicar por que ele decidiu tirar a própria vida — afirmou Saab. — Ele se suicidou por temer cair no descrédito público.

A oposição, o Parlamento e boa parte da comunidade internacional exigiram uma investigação “externa e independente” do caso. Mas o ex-premier espanhol José Luís Zapatero, mediador das negociações entre os opositores e o governo pediu que “sejam respeitadas” as instituições venezuelanas, e que as conclusões do Ministério Público se apresentem “razoáveis, objetivas e verificáveis”.

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