'Trocar inflação controlada por crescimento de curto prazo é voo de galinha', adverte presidente do Banco Central

BRASÍLIA — Em audiência pública na Comissão Mista de Orçamento do Congresso, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou, nesta quinta-feira, que a autarquia não trocará uma situação de inflação sob controle por um crescimento de curto prazo da economia. Ele sinalizou que, diante de uma série de fatores, com destaque para a situação fiscal “delicada” do país, não há espaço para uma queda na taxa básica de juros (Selic) neste momento.

— Achar que vamos trocar a inflação controlada por crescimento de curto prazo é voo de galinha. Não dura e, quando ele volta, a crise é grande e nós gastamos um bom tempo tentando recuperar isso. Já tentamos isso no passado. Inflação mais alta por crescimento mais alto e deu errado — afirmou Campos Neto, acrescentando que, na crise de 2014, os juros caíram e o país pagou uma conta de dois anos de recessão.

— Temos uma inflação controlada, os juros mais baixos da história, mas uma situação fiscal muito delicada — disse.

Durante a audiência pública, Campos Neto praticamente repetiu a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom), que manteve a taxa básica de juros (Selic) em 6,25% ao ano. Ele reforçou a percepção da autarquia de que a trajetória de crescimento da economia foi interrompida, mas será retomada. Mas demonstrou cautela quanto à condução de sua política monetária.

— O grau de estímulo adequado depende das condições da conjuntura, em particular, das expectativas de inflação, da capacidade ociosa na economia, do balanço de riscos e das projeções de inflação — afirmou.

Na última terça-feira, o Copom indicou que trabalha com a possibilidade de um “ligeiro recuo” do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre deste ano. Um dia depois, o indicador que mede a atividade da autoridade monetária, o IBC-Br, mostrou queda de 0,68% nos três primeiros meses de 2019. Esse cenário levou as consultorias e outros agentes do mercado a revisarem para baixo suas projeções de crescimento da economia.

— Nós mencionamos na ata e mencionamos na linguagem oficial que ficamos também decepcionados com o resultado do crescimento. Inclusive mencionamos a palavra ‘retomada’, o que significa que a gente acha que ele (crescimento) foi parcialmente interrompido — disse ele.

O presidente do BC disse que, apesar da interrupção da trajetória de recuperação da economia brasileira, espera a retomada gradual da atividade econômica, incluindo a expansão dos investimentos e a melhora no mercado de crédito. Campos Neto, porém, fez um alerta: persistem incertezas sobre aspectos fundamentais do ambiente econômico futuro — notadamente sobre sustentabilidade fiscal — com efeitos adversos sobre a atividade econômica.

Campos Neto repetiu o trecho da ata do Copom de que os indicadores do primeiro trimestre induziram “revisões substantivas” nas projeções para o crescimento do PIB em 2019 . Ele citou a pesquisa semanal Focus, do BC, ressaltando que o mercado projeta um crescimento da ordem de 1,5% para 2019 e de 2,5% para 2020.

Ele afirmou que o Brasil continua sendo alvo de incertezas, devido à sua situação fiscal e à expectativa em torno da aprovação das reformas da Previdência e tributária. Segundo ele, esse cenário levou ao adiamento de investimentos.

— Não conseguimos nos livrar das incertezas, que continuam no ar. Isso explica um pouco o adiamento da decisão de investir. Quanto mais mostrarmos aos investidores que estamos falando sério sobre a disciplina fiscal, mas rápido vamos receber investimento.

Na semana passada, o Brasil saiu do ranking das 25 países mais confiáveis para receber investimentos, medido pela consultoria A.T.Kearney. O país estava nessa lista desde que o levantamento começou a ser realizado.

— A aprovação e a implementação das reformas, notadamente as de natureza fiscal, e de ajustes na economia brasileira é essencial para a manutenção da inflação baixa no médio e longo prazos, bem como para a queda da taxa de juros estrutural e para a recuperação da economia. É importante destacar que a percepção de continuidade da agenda de reformas afeta as expectativas e projeções macroeconômicas correntes.

Segundo o presidente do BC, no ambiente doméstico, a economia sofreu diversos choques ao longo de 2018. Ele frisou que, apesar disso, a atuação” firme e transparente” do Banco Central nos momentos de maior volatilidade foi fundamental para a manutenção da funcionalidade dos mercados e para o amortecimento dos impactos desses choques sobre os preços.

— Uma aceleração do ritmo de retomada da economia para patamares mais robustos dependerá, também, de outras iniciativas que visam ao aumento de produtividade, ganhos de eficiência, maior flexibilidade da economia e melhoria do ambiente de negócios.

Em relação à economia internacional, Campos Neto destacou que o cenário permanece desafiador. Ele salientou que, ainda que os indicadores recentes tenham apresentado surpresas positivas, o Copom avalia que o risco de desaceleração permanece e que incertezas sobre políticas econômicas e de natureza geopolítica podem contribuir para um crescimento global ainda menor.

— Por um lado, os riscos associados a uma desaceleração da economia global permanecem relevantes. Por outro lado, os riscos associados à normalização das taxas de juros em algumas economias avançadas mostram-se reduzidos no curto e médio prazos. Não obstante tais incertezas, o Brasil apresenta capacidade de absorver um revés no cenário internacional, devido ao seu balanço de pagamentos robusto, à ancoragem das expectativas de inflação e à perspectiva de recuperação econômica — afirmou.

Ele também defendeu a autonomia do Banco Central. Disse acreditar que um que um BC autônomo, como estabelece projeto de lei atualmente em discussão no Congresso, proporcionaria uma redução de incertezas econômicas e dos prêmios de risco,” o que nos levaria a uma melhor condição de consolidar os ganhos recentes e abrir espaço para os novos avanços que o país tanto precisa”.

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