Os poderosos grilos de Havana

Em setembro de 2017 as autoridades americanas acusaram o
governo de Cuba de ter lançado um “ataque acústico” contra a sua embaixada. Na
sequência desse inédito ataque, 16 diplomatas foram hospitalizados, sofrendo
problemas auditivos, tonturas e enjoos, tendo os americanos decidido repatriar
mais da metade dos seus funcionários, ao mesmo tempo que ameaçavam Cuba com todo
o tipo de retaliações. A grande interrogação que então se colocou, inquietando
os militares de todo o mundo, foi: “que nova arma inventaram os cubanos?”

Na passada sexta-feira, cientistas americanos divulgaram o resultado de
apuradas análises às gravações de áudio disponibilizadas pelos diplomatas. O som
gravado é o de grilos machos (da espécie Anurogryllus celerinictus),
tentando atrair as fêmeas. Grilos. Sim, grilos. Ou seja: os grilos de Havana
aterrorizaram, durante meses, a mais poderosa potência militar do planeta —
desorientando, no processo, outras tantas.

O estudo dos cientistas americanos deve ter sido recebido em Havana com
largas gargalhadas, mas também com inevitável desapontamento. Afinal de contas
aquela arma misteriosa deu, durante alguns meses, um imprevisto fôlego à
capacidade dissuasória do enfraquecido exército cubano.

No sul de Angola, em Benguela, existe um pequeno inseto,
o martrindinde, capaz de produzir com as asas um som muito mais estridente do
que o de qualquer grilo (mesmo cubano). Imagino os estragos que uma brigada de
martrindindes, bem treinada, poderia fazer. Aliás, bastaria um único e bravo
martrindinde, infiltrado na Casa Branca, para alterar para sempre a história
americana. Espero que a inteligência militar angolana leia esta coluna e decida
investir nos martrindindes.

Já os cubanos, angolanos, brasileiros e, regra geral,
todos os povos das bem-aventuradas nações tropicais, habituados a enfrentar o
cotidiano “ataque acústico” de cigarras, grilos, sapos e martrindindes, não têm
que recear senão a música country e as duplas sertanejas.

Nos EUA prossegue, entretanto, a longa novela do muro. O governo americano
continua parcialmente paralisado (ao menos até a data em que escrevo esta
coluna). Além disso, Donald Trump ameaça declarar estado de emergência nacional,
o que lhe permitiria tomar uma série de medidas extraordinárias, incluindo a
mobilização de fundos militares, mas também elevaria o conflito com os
democratas a um nível nunca antes visto.

Desesperado, Trump esperneia, dá murros nas mesas
(literalmente) e desdobra-se em mentiras. A fronteira serve de passagem para
terroristas — afirma. Quais terroristas? Não sabe dizer. Os traficantes usam as
áreas desprotegidas para passar a droga que todos os dias mata centenas de
cidadãos americanos. Sim, é verdade que uma boa parte das drogas que entram nos
EUA passam pela fronteira com o México, mas vão escondidas em veículos que a
cruzam legalmente. Etc., etc.

Inventar “armas acústicas” e outros perigos inexistentes
pode funcionar durante algum tempo, assustando as pessoas, e unindo-as contra o
inimigo comum. Contudo, mais dia menos dia, alguém acaba descobrindo que o
suposto inimigo era, afinal, um simples grilo. Por vezes é tarde demais. A
história está cheia de embustes triunfantes. Quero acreditar, contudo, que
Donald Trump cairá derrubado pelas próprias mentiras.

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