Olavo, Bannon e patota conservadora: conheça quem vai receber Bolsonaro em Washington

Um dos primeiros
compromissos do presidente Jair Bolsonaro em Washington será um jantar na noite deste domingo com uma seleta patota conservadora, que inclui desde os onipresentes Olavo de Carvalho (filósofo autodidata, escritor preferido do governo e usuário assíduo de redes
sociais) e Steve Bannon (ex-chefe de campanha de Donald Trump, promotor de um movimento para para reverter o Iluminismo), a figuras do conservadorismo americano menos conhecidas no Brasil, que ajudam a entender as alianças e influências ao norte do presidente
brasileiro.

Jornalistas,
financistas e professores devem se reunir na casa do embaixador brasileiro nos EUA, Sérgio Amaral. A recepção deve ser uma das últimas que o anfitrião sediará naquele imóvel, porque, em referência ao embaixador, o presidente brasileiro já disse que “uma certeza
é que vai ser trocado”. Segundo Bolsonaro, é preciso substituir Amaral, assim como mais de uma dezena de seus pares, porque a imagem do Brasil sob seu comando está sendo transmitida de “maneira ruim”. “Não sou ditador, homofóbico, racista”, afirmou.

O presidente,
a quem Olavo recentemente descreveu como “o homem mais solitário, mais caluniado e mais boicotado que já viveu neste país”, deve encontrar mais amizade entre os americanos. Bannon, de longe o mais famoso dos americanos convidados para a recepção, já o descreveu
como “um grande líder”, “brilhante” e “muito sofisticado”, além de “muito parecido a Trump”.

Ex-chefe
de campanha do atual morador da Casa Branca, Bannon é a mais proeminente figura do movimento conservador populista global, e ambiciona, em suas próprias palavras, algo tão grande quanto a Revolução Francesa, isto é, “uma completa inversão, de ponta à cabeça,
da sociedade e de sua estrutura”. Dentre os seus inimigos estão os valores da Revolução Francesa, a globalização, a imprensa tradicional, a União Europeia e os movimentos migratórios, entre muitos outros.

Em agosto
de 2018, na pré-campanha ao Planalto, Bannon se encontrou com Eduardo Bolsonaro, que, na ocasião, escreveu no Twitter que os dois “tiveram uma grande conversa e compartilham a mesma visão de mundo. Ele [Bannon] disse ser um entusiasta da campanha de Bolsonaro,
e nós certamente estamos em contato para unir forças, especialmente contra o marxismo cultural”.

Embora tenha
sido demitido do governo Trump em agosto de 2017, Bannon teve participação importante na campanha de Trump, e rotineiramente se diz que foi ele um dos principais estrategistas por trás da Cambridge Analytica , consultoria de dados acusada de ter interferido
nas eleições americanas e também no referendo do “Brexit”, no Reino Unido, a partir de dados coletados no Facebook.

Em agosto
de 2017, Bannon foi demitido do governo americano, após a publicação de um livro em que dizia várias coisas que desagradaram a Trump e o seu círculo íntimo, como, por exemplo, que o filho do presidente, Donald Trump Jr., cometera um ato de “traição” ao conversar
com russos durante a campanha.

Bannon tem
obsessões bélicas, e seu livro favorito, supostamente, é “A arte da guerra”, de Sun Tzu. Quando comandava o Breitbart, site de notícias de extrema direita, dizem que ele todos os dias repetia na redação: “Estamos em guerra. Isto é uma guerra”. Numa rádio americana,
ele também já declarou que “não há dúvidas de que nós [EUA] iremos à guerra no mar do Sul da China em no máximo 10 anos”.

Atualmente,
Bannon comanda “O Movimento”, com o objetivo de ser uma plataforma para reunir governos populistas ao redor do mundo. Um de seus objetivos iniciais é obter resultados expressivos nas eleições para o Parlamento Europeu em maio. Em janeiro, foi anunciado que
Eduardo Bolsonaro será o representante do movimento na América do Sul.

A colunista
do Wall Street Journal Mary Anastasia O’Grady é outra convidada. Ela foi uma das únicas vozes a saudar a vitória de Bolsonaro em um grande jornal global. Enquanto, nas palavras da própria O’Grady, “a mídia internacional orgulhosamente ‘progressista’” declarava
o candidato “uma ameaça ao meio ambiente e à democracia”, ela viu em sua eleição uma “oportunidade única para promover a liberdade e a prosperidade na maior economia da América do Sul”.

O’Grady
escreve sobretudo sobre a América Latina, e rotineiramente trata do Brasil, com ataques frequentes ao PT. Em 2013, quando se descobriu que a Agência Nacional de Segurança americana (NSA, na sigla em inglês) espionara o governo DIlma, ela escreveu o artigo “Por
que a NSA espiona o Brasil”, justificando a bisbilhotagem. Afirmando que os “melhores amigos” dos governos de Lula e Dilma eram “Cuba, Irã e Venezuela”, ela disse que a espionagem era portanto “lógica” e “útil”. “Se os espiões dos EUA não estão prestando atenção
no Brasil, então não estão prestando atenção em nada”, disse.

Além de
se interessar pelos rumos de Brasília, O’Grady costuma formular ideias de uma adesão fervorosa à liberdade de mercado, com repulsa a qualquer regulamentação econômica, que entende como sinônimo de tirania.

Outro velho
amigo de Bolsonaro é o investidor brasileiro Geraldo Brant, que conheceu o presidente a partir do filho e senador (PSL-RJ) Flávio, e que ciceroneou o mandatário em uma viagem em 2017. Filho de um diplomata brasileiro com uma mãe americana, ele se
mudou para o Rio de Janeiro na década de 1980, mas estudou nos Estados Unidos.

Brant se
define como “um ex-comunista desde criança”, e foi responsável por apresentar Bolsonaro a financistas americanos durante a campanha. Sua ajuda, afirma, se dá de modo voluntário, por identificação ideológica. O brasileiro-americano trabalha como diretor na empresa
de investimentos Stonehaven, em Manhattan, e já passou pelo banco Merrill Lynch, entre outros. Costuma ser visto na Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos e no Conselho das Américas e é um católico praticante.

O professor
de Relações internacionais Walter Russel Mead, que já ensinou na Universidade Yale e também escreve no Wall Street Journal, é a figura de maior reputação intelectual do jantar, com diversos livros publicados e aceitação na academia e em grandes publicações
mundiais.

Em um influente
artigo de 2014, Mead entende que acreditar que o consenso predominante no Ocidente desde a Guerra Fria — de que a “liberalização do comércio, a não proliferação nuclear, os direitos humanos,
o predomínio da lei, as mudanças climáticas, e assim por diante” — tendia a disseminar-se de forma mais ou menos espontânea é uma visão ingênua, e que os fatores geopolíticos tradicionais — o poderio militar, a disputa por recursos naturais, interesses territoriais
— ainda preponderavam.

Mead é enfático
defensor de uma presença robusta dos EUA no exterior, e entende que a prosperidade e segurança internacionais, assim como os direitos humanos, dependem dos EUA no centro de uma poderosa rede de aliados. Ele já afirmou que “os EUA precisam assumir o papel global
que o Império Britânico teve em seu ápice”.

Sobre Bolsonaro,
em um artigo do final de 2018, Mead afirmou que “o maior vencedor de 2018 é o mais improvável presidente de um grande país nos tempos modernos”. O presidente brasileiro, disse o professor, “cruelmente insultou mulheres, minoriais sexuais e negros”, além de
ter dedicado “28 anos a serviços insignificaticantes no Congresso”. A questão que restava em aberto para ele naquele momento era se Bolsonaro “pretendia governar do mesmo modo que realizara a sua campanha”.

Outro intelectual
condecorado — estudou em Yale e já escreveu para publicações respeitáveis como o suplemento literário Times Literary Suplement — é Roger Kimball, que já esteve reunido com Eduardo Bolsonaro quando o deputado federal (PSL-SP) foi a Washington após a eleição
do pai. Kimball deve ter o que conversar com o chanceler Ernesto Araújo.

Foi na New
Criterion, publicação que Kimball edita, que Araújo publicou em dezembro “Agora nós tratamos (de Deus)”, primeiro artigo de sua lavra publicado em inglês depois da nomeação ao Itamaraty. No texto, o chanceler afirma que a divina providência “uniu as ideias
de Olavo de Carvalho à determinação e ao patriotismo de Jair Bolsonaro” para pôr fim ao regime “corrupto e ateu” que, segundo ele, emergiu no Brasil com a Nova República e teve seu auge nos governos do PT.

Segundo
estudiosos informais da emergente obra de Araújo, o chanceler macaqueia maneirismos e argumentos de Kimball em seus escritos, pinçando, com toques de erudição e de sisudez, ataques contra a degeneração do Ocidente, ao lado de defesas veementes de uma cultura
clássica perdida. Alguns de seus escritos ensaísticos criticam filósofos como Friedrich Nietzsche, Michel Foucault e Martin Heidegger — este último, querido por Araújo, que recorrentemente cita uma famosa frase de uma entrevista concedida ao final da vida do
alemão.

Kimball
é historiador da arte, e seus escritos exaltam artistas do realismo clássico, movimento de arte que defende valores e técnicas tradicionais da arte representativa, em detrimento das transgressões comuns à arte contemporânea. Um de seus livros mais famosos se
chama “O estupro dos mestres: como o politicamente correto sabota a arte”.

O radialista
e escritor Dennis Prager é o derradeiro convidado do jantar confirmado até esta sexta-feira. O site PragerU, que produz vídeos explicativos de valores conservadores, é de sua concepção. O objetivo do projeto é se contrapor
“aos efeitos intelectuais e morais deteriorantes” do sistema de educação superior americano.

Assim como
a maioria dos demais convidados, Prager escreve sobre temas políticos, econômicos e filosóficos. Ao contrário da maioria dos colegas, no entanto, o radialista não foi inicialmente um defensor de Donald Trump em 2016, porque o comportamento do hoje presidente,
com seus palavrões, as denúncias de mulheres e as mentiras, lhe pareceram em desacordo com os seus princípios morais. Ainda assim, quando as primárias se encerraram e a disputa se polarizou contra a democrata Hillary Clinton, ele acabou por abraçar a candidatura
do bilionário. “Derrotar a esquerda, os democratas e Hillary Clinton também é um princípio”, disse na época. “Este é o maior princípio”.

Assim como
Bannon, Prager também gosta de referências bélicas, e, no texto “Estados divididos: A segunda Guerra Civil Americana”, traduzido para o português pelo blog “Tradutores de direita”, afirma que “já é hora de nossa sociedade reconhecer uma triste realidade: A
América está atualmente vivendo a sua segunda Guerra Civil”.

“Há aqueles,
tanto na esquerda quanto na direita, que clamam pela unidade americana. Mas esse clamor é ingênuo ou falso. A unidade seria possível entre a direita e os liberais, mas não entre a direita e a esquerda”, ele afirmou. “Sem qualquer valor importante mantido em
comum, como pode haver unidade entre esquerda e não-esquerda? Obviamente, não pode”

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