O que Nova York tem para mostrar em segurança pública

As picuinhas do prefeito de Nova York, Bill de Blasio, contra o presidente Jair Bolsonaro atiçaram minha curiosidade para checar como a Grande Maçã anda em termos de segurança pública. Afinal, num passado não muito distante, a cidade era violenta, mesmo para padrões brasileiros. Assim, como Nova York está hoje em relação, por exemplo, ao Rio de Janeiro?

Como em colunas anteriores, uso os dados do Rio devido à longa série histórica de índices criminais oferecida pelo Instituto de Segurança Pública. Em Nova York, os dados são fornecidos pelo próprio departamento de polícia. Para dar uma vantagem competitiva, a comparação será da cidade de Nova York com todo o estado do Rio.

Lá pelo início dos anos 90, Nova York tinha índices criminais para disputar, ombro a ombro, com qualquer cidade grande brasileira. Em 1990, especificamente, foram 2.262 assassinatos por lá — e eram uns 7 milhões de novaiorquinos; no ano passado, por exemplo, houve 2.949 homicídios em todo o estado de São Paulo, que tem 45 milhões de habitantes.

Olhando-se outros delitos, nota-se que a bandidagem não descansava na cidade que nunca dorme. Comparando com o estado do Rio (os delitos cariocas começam a ser contados em 1991, mas sem separar capital do resto do estado):

Ou seja, a Nova York 1990 fazia o Rio 1991 parecer um cantinho bucólico do mundo. Tinha 43% menos habitantes (7,3 milhões lá contra 12,8 milhões aqui), mas 134% mais roubos, 513% mais furtos de veículo. Naquela época, o estado do Rio era governado (pela segunda vez) por Leonel Brizola. Em Nova York, o prefeito era o democrata David Dinkins.

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Corta para 2018. Nova York teve três prefeitos nesse período. O estado do Rio, sete governadores. E os números?

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Nova York agora tinha cerca de metade dos moradores do estado do Rio, basicamente a mesma proporção do início dos anos 90. Mas os crimes… Ah, quanta diferença. Aproximadamente 94% menos roubos. Quase 70% menos furtos. Cerca de um terço dos furtos de veículo.

E os homicídios? No Rio, aos soluços, saímos de 7.518 vítimas em 1991 para 4.950 em 2018, uma excelente queda de 34%. Em Nova York, o número despencou 87%: de 2.262 mortos em 1990 para 295 assassinatos no ano passado.

Aqui, a descida foi aos engasgos, com subidas e descidas. Lá, é ladeira abaixo, com a exceção de uma pequena subida de 20 casos entre 1998 e 2001.

Policiais isolam cena de crime na Times Square, Nova York, 2002 Mario Tama / Getty Images

Aqui, cada governador quer implementar sua política. E tome gasto de dinheiro — em alguns casos, somas astronômicas, como no caso das UPPs — porque fazer o básico, o simples, não dá vitrine nem voto. Lá, passa democrata, republicano, independente, e as políticas públicas de segurança vão, sem pirotecnia, desbastando os índices de criminalidade para o patamar mais baixo desde os anos 50.

A ação mais conhecida foi a aplicação da Teoria da Janela Quebrada nos anos 90 com Rudolph Giuliani e seu chefe de polícia, William Bratton — embora um estudo do economista Steven Levitt aponte a legalização do aborto nos EUA, em 1973, como motor da queda na criminalidade em Nova York e em outras cidades americanas. Mas o que se fez, em termos práticos, foi aumentar o policiamento, usar tecnologia na vigilância das ruas, coibir as guerras do tráfico. Nenhuma reinvenção da roda.

Enfim, Bill de Blasio passará, como outros passaram, mas a tendência é que a violência em Nova York continue descendo. Os dados deste ano, aliás (até 29 de abril, última data disponível), indicam uma queda em homicídios, roubos, agressões, arrombamentos e furtos, na comparação com o mesmo período de 2018. Pouco importa se o prefeito é um gênio ou um pateta. A caminhada é na direção certa.

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