O PISA e o complexo de vira-latas

Nossa interpretação dos resultados do PISA, a prova mundial de conhecimento dos alunos do ensino médio, diz muito sobre nosso complexo de vira-lata. A pessoa que tem esse complexo, também conhecido como complexo de inferioridade, recorrerá sempre aos resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), no qual o Brasil vem ocupando as últimas posições desde que o país passou a fazer parte em 2003, para falar mal do Brasil, para dizer e reafirmar que nada presta no Brasil.

O Pisa foi estabelecido em 2000 pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para mensurar em bases comparáveis o desempenho de estudantes de 15 anos de idade em leitura, matemática e ciências . Tomando-se como referência a prova de matemática, em 2000, primeira edição do Pisa, 39 países tomaram parte. Esse número vem crescendo e em 2018 foram 79 países. Os testes são feitos a cada três anos e tanto países membros da OCDE quanto não-membros podem participar. As notas dos estudantes brasileiros variam muito, os que são de escolas públicas federais e escolas particulares obtém médias idênticas aos países da OCDE, enquanto os alunos das escolas públicas municipais e estaduais têm desempenho sofrível .

As últimas posições ocupadas pelo Brasil nesta prova mundial podem ser relativizadas. Há evidências robustas de que os estudantes da rede municipal e estadual não conseguem administrar adequadamente o tempo da prova, o que os leva a deixar de concluir a primeira parte do exame de maneira inédita quando comparados com todos os demais países . Não chegar ao final da prova é um problema mais acentuado no primeiro do que no segundo bloco de questões, sugerindo que no decorrer do exame os nossos estudantes aprendem a lidar com as perguntas na medida em que vão realizando a prova. É possível supor que o simples treinamento dos alunos para fazer provas com o mesmo formato do Pisa resultaria na melhoria no desempenho.

Além disso, e aqui vou me referir não ao resultado divulgado hoje, mas ao teste de 2015, foi todo ele realizado em computadores, algo pouco familiar para crianças que estudam em escolas com menos recursos, e que por isso pode ter influenciado negativamente o desempenho (em 2010, no Brasil, apenas 38% das residências tinham microcomputador). Sabe-se também que os incentivos para fazer provas desta natureza tem influência no resultado final . Uma coisa é o desempenho de um aluno fazendo o ENEM ao saber que ele poderá ingressar em uma universidade se tirar uma boa nota. Outra, inteiramente diferente, é esse mesmo aluno diante de um computador respondendo a questões com tempo definido, de uma prova internacional organizada pela OCDE, uma entidade sem significado algum para ele, só podendo passar para a questão seguinte caso responda ou pule a questão corrente, para a qual não poderá mais retornar.

A prova internacional de desempenho escolar indica que a qualidade do ensino nas escolas municipais e estaduais brasileiras precisa melhorar bastante. Contudo, ela não avalia apenas isso. A capacidade de fazer um exame também vem sendo mensurada. O desempenho dos estudantes brasileiros no Pisa, diante de tais limitações, poderá melhorar bastante no curto prazo sem que necessariamente o conteúdo ensinado e aprendido seja modificado, bastando para isso dar algum incentivo àqueles que fizerem o exame, como recursos adicionais para sua escola, e treiná-los no formato da prova. Eles precisam ver algum sentido em enfrentar mais esse desafio, preferencialmente combinado com um treinamento para fazê-lo, algo que possivelmente já existe nos países que apresentam melhor desempenho na prova.

O complexo de vira-latas, essa entidade onipresente, dirá baixinho em nossos ouvidos de brasileiros que nada disso faz sentido, que as notas do Brasil no Pisa são exclusivamente resultado da combinação entre baixíssima qualidade de nosso ensino, péssimos salários dos professores e condições degradantes das escolas. Além disso, essa entidade da inferioridade a nos cochichar coisas que supostamente fazem sentido, afirmará a inutilidade de nosso esforço educacional das últimas décadas, dirá que foi de pouca ou nenhuma valia o aumento do gasto educacional, as inovações legislativas na área, ter universalizado o ensino fundamental e ampliado bastante o médio e o superior. Diante disso tudo, concluirá que mesmo diante de grande esforço jamais melhoraremos no Pisa, nem se treinarmos e incentivarmos os alunos a fazer uma prova pouco familiar e inteiramente sem sentido, ou se investirmos pesadamente na melhoria do conteúdo ensinado, nas condições escolares e no aumento salarial dos professores. Em face de tal argumentação que acima de tudo é incapaz de reconhecer avanços e melhorias, restará a nós o desânimo.


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