‘O Pintassilgo’: filme injeta vida em livro cult mas moroso de Donna Tartt

Chegar ao fim das mais de 700 páginas do romance O Pintassilgo (Companhia das Letras), de Donna Tartt, não é uma jornada fácil — ou prazerosa. Vencedor do Pulitzer em 2014 e frequentador das listas de mais vendidos, o livro demora a engatar ao narrar a história de Theo, um garoto de 13 anos que perde a mãe em um atentado terrorista no Metropolitan Museum, em Nova York. Ali pelo meio do calhamaço, a história sobre o luto se perde em gorduras desnecessárias – como boa parte do calvário do órfão na fuga existencial oferecida pelas drogas, acompanhado de Boris, um amigo ucraniano que beira o caricato. Adaptar o livro para o cinema é uma tarefa que trazia óbvios desafios, em razão de tantas firulas. Mas que acenava com uma possibilidade promissora: mediante uma poda radical e inevitável, já que seria preciso acomodar a história na duração de um longa-metragem, O Pintassilgo quem sabe se revelaria uma ave mais esbelta – e tragável.

O diretor John Crowley (do indicado ao Oscar Brooklyn) encarou a missão – e não se deu mal. O Pintassilgo (The Goldfinch/Estados Unidos/2019), que estreia no Brasil nesta quinta-feira 10, é uma adaptação que ainda exibe um ou outro excesso, mas, no geral, resulta em um thriller competente. Para tanto, Crowley conta com a ajuda de um elenco estrelado: Nicole Kidman, Sarah Paulson, Luke Wilson e o protagonista Ansel Elgort são alguns nomes — além de um bom time de adolescentes, com o expressivo Finn Wolfhard (de Stranger Things) na pele de Boris e Oakes Fegley, na primeira fase de Theo.

Para injetar uma dose de ânimo e energia na melancólica e interminável trama de Donna Tartt, Crowley foge da ordem cronológica proposta pela autora na obra original. Prefere recortes que revelam aos poucos o ocorrido no museu. Ao sobreviver ao atentado, Theo retorna para casa esperando que a mãe também volte – o que não acontece. Ele é acolhido temporariamente pela fria e rica família de um amigo. Em determinado ponto, o luto da mãe é apaziguado pelo cuidado da matriarca da casa (Nicole Kidman), mas a possibilidade de ser adotado se esvai com o ressurgimento do pai alcoólatra (Luke Wilson), junto com sua namorada fuleira (Sarah Paulson, que incute um bom alívio cômico no drama familiar). Constantemente drogado pelos adultos, que acreditam ser aceitável dar remédios a um menino que sofreu um trauma, Theo logo se envolve com uma ampla cartela de drogas ilícitas, apresentadas por Boris.

O desagradável cenário familiar, os vícios e a excruciante dor da perda da mãe são ainda emoldurados pela trama paralela do roubo do quadro que dá nome ao filme, do holandês Carel Fabritius (1622-1654), discípulo de Rembrandt — obra que Theo admirava na hora do atentado. O excesso de elementos abafa no livro o que seria, em última instância, seu mote mais palpitante: como uma criança vive ao perder uma parte de si que deveria ser eterna? Com ajuda da humanidade e talento que exalam do jovem Oakes Fegley, o filme consegue ser mais feliz na tarefa de dizer a que veio.


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