Mulher fica ferida durante cárcere privado com os filhos em Cascadura

RIO — Mantida como refém junto com os dois filhos gêmeos, de 11 anos, desde a noite de terça-feira, a professora Luciana Arminda, de 45 anos, foi encontrada com lesões pelo corpo no apartamento da família em Cascadura, depois que o marido resolveu se entregar à polícia. Uma parente da vítima foi até o apartamento assim que o tenente-coronel do exército foi preso e acompanhou o atendimento médico de Luciana.

– Ela sofreu lesões. As crianças não foram agredidas fisicamente – comentou.

Segundo o tenente Wellington Moreira, porta-voz do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), com o militar do Exército André Luiz foi apreendida uma pistola, que foi levada para a 29ª DP (Madureira) junto com ele.

_ O Bope seguiu nas negociações até a rendição dele, por volta das 9h40m. A família passa bem. Não houve nenhum tipo de dano mais contundente. São mais danos emocionais, que a equipe médica está avaliando. Usamos psicólogos, negociadores, a equipe técnica para traçar um perfil daquela pessoa para que se chegasse à melhor solução, o que foi conseguido. A intenção do Bope é a preservação da vida e, hoje, conseguimos preservar todas elas – contou o tenente Moreira.

O militar disse ainda que André Luiz estava num momento de muito desgaste.

_ Ele estava bastante desgastado emocionalmente. A gente entende. Foram quase 12 horas de negociação. É difícil tanto para ele quanto para a família. Mas tudo deu certo e vamos em frente.

Bastante reservado, André Luiz era tido por vizinhos como uma pessoa agressiva e fechada. Frequentadores de uma academia de ginástica onde André Luiz ia com frequência se lembraram de um episódio ocorrido em setembro do ano passado que, segundo eles, mostra o temperamento do militar do Exército.

_ Ele chegou aqui 15 minutos antes de a academia fechar, o que acontece às 22h. Foi avisado do curto período que teria para ficar na academia e foi para a esteira. Um funcionário começou, então, a desligar os aparelhos de TV. O homem estava voltado para uma televisão quando o funcionário desligou um aparelho perto de lá. Foi quando ele se virou e gritou em tom ameaçador. “Estou sendo incomodado! Que p. é essa?”, teria dito ao rapaz, que estava trabalhando na academia havia pouco tempo.

Luciana Arminda dá aula de Libras para crianças com problemas como surdez, mudez e autismo na Escola Municipal França, em Quintino Bocaiúva. Alunos da escola disseram que ficaram assustados ao saberem, na manhã desta quarta-feira, do caso envolvendo a família de Luciana.

_ É uma pessoa muito simpática, sempre pronta para ajudar quem precisa. Fiquei muito triste quando soube o que estava acontecendo. Ela, muito menos os filhos, mereciam ter passado por isso. Agora, deve se curar e procurar ser feliz com outra pessoa – comentou Raquel Oliveira, de 13 anos, aluna do 8º Ano da Escola França.

Lembro de um dia, há quase um mês, que encontramos a professora sentada próximo do refeitório. Estava com a aparência de estar muito triste. Ficamos até sem jeito de chegar. Há pessoas que se fecham em momentos assim – concluiu Raquel.

Angélica Batista, de 39 anos, tem um filho que já estudou na mesma escola que os gêmeos de Luciana, disse que pais costumavam reparar nos braços roxos dela e no olhar para baixo.

_ Víamos os braços roxos e a expressão no olhar para baixo. Isso nos preocupava. Não tenho muito conhecimento da famíiia dela, mas reparava nisso – contou Angélica.

O porta-voz da Polícia Militar, coronel Mauro Fliess, informou que André Luiz iria ser foi levado para a 29ª DP (Madureira) para ser autuado por crimes comuns e que, depois, seria entregue ao Exército. Ele contou que o processo de negociação foi tenso. Equipes de médicos, psicólogos e policiais treinados em negociações de conflitos participaram da ação, assim como equipes do Exército, à paisana. A rua foi tomada por policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope), do Batalhão de Ações com Cães (BAC) e atiradores de elite. O tenente-coronel André Luiz, de 50 anos, seria integrante do Serviço de Inteligência do Exército.

A movimentação policial na Rua Cerqueira Daltro, uma das principais vias do bairro de Cascadura, chamou a atenção de curiosos. Uma multidão de pessoas se aglomerou no Largo de Cascadura e em calçadas próximas para acompanhar o desenrolar da história. Muitas delas faziam comentários sobre a situação da mulher e dos filhos e criticavam o pai deles.

O Batalhão de Operações Policiais Especiais assumiu a ocorrência ainda na noite desta terça-feira. Fliess explicou que todos os protocolos foram seguidos e os reféns ficaram “sob controle, na medida do possível”. Fliess explicou que as negociações envolveram tempo. O casal mora no Residencial Califórnia Park, na Rua Cerqueira Daltro.

Segundo Fliess, o militar mostrou descontrole diante de um problema familiar:

– É tenente-coronel da ativa do Exército Brasileiro. Ele demonstrou um descontrole diante de um problema familiar. É uma questão pessoal dele, que será abordada pelo Exército.

Em nota, o Comando Militar do Leste informou que transmitiu à Políicia dados que pudessem ser úteis ao processo de negociação. Após ele se entregar, a mulher e os filhos receberam atendimento de profissionais de saúde e estão na companhia de parentes próximos. Depois de prestar depoimento, o militar será encaminhado ao Hospital do Exército, permanecendo preso à disposição do Poder Judiciário.

Luz cortada

O fornecimento de energia elétrica para o apartamento da família foi interrompido por medida de segurança. A Rua Cerqueira Daltro foi interditada ao trânsito de veículos. Uma faixa foi colocada em frente ao Largo do Cascadura, que fica diante do condomínio. A calçada em frente ao prédio foi bloqueada.

Pouco antes das 7h desta quarta, um casal entrou no prédio após conversar com policiais. Durante a madrugada desta quarta-feira, uma psicóloga e uma major da PM também participaram da negociação. Uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi deslocada para o local.

Um vizinho que preferiu não se identificar disse que, horas antes da movimentação dos policiais no local, a mulher gritava por ajuda enquanto era agredida.

— Ele sacou uma arma e ameaçou a mulher e os filhos. Ele já tem histórico aqui no prédio de brigar com a esposa. Vizinhos já o viram agredindo a mulher — disse.

Outra testemunha contou que, ao ouvir os gritos, por volta das 20h, moradores procuraram a portaria do prédio, que acionou a polícia.

— Ela começou a gritar. Depois disso, uma vizinha ligou para a portaria, que acionou a polícia — contou o homem, que também não quis se identificar.

Source: http://oglobo.globo.com/rss.xml?completo=true

Loading...