História de amor e guerra: família se reencontra na Eritreia após 18 anos

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ASMARA, Eritreia — Quando a Etiópia e a Eritreia deflagraram uma guerra em 1998 e começaram a realizar deportações em massa de um lado para o outro, Addisalem Hadgu, de 58 anos, pensou que não havia nada com que se preocupar, confiante em que seu passaporte etíope fosse impedir a expulsão de sua mulher.

Dois anos mais tarde, quando o conflito se intensificou na fronteira entre os dois países, Nitslal Abraha misteriosamente desapareceu com as duas filhas do casal. Addisalem, um jornalista de uma TV Estatal da Etiópia, embarcou em uma busca incessante.

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Um vizinho o abordou vários dias depois e lhe entregou uma carta escrita por Nitsal, em que ela dizia que havia ido embora para a Eritreia com Azmera e Danayt, que eram adolescentes naquela época.

A carta não explicava suas razões, mas Addisalem suspeitava que ela, assim como milhões de outros cidadãos de ambos os lados do conflito, havia sido varrida pelo patriotismo e o nacionalismo que engoliram os dois países enquanto o derramamento de sangue aumentava.

“Um dia, devemos nos encontrar”, dizia a mensagem.

Eles permaneceram, no entanto, 18 anos separados. Não havia nenhuma forma de se comunicarem — todos os meios de transporte, telefone e serviços postais entre os dois vizinhos tinham sido cortados desde o início do conflito.

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Neste mês, porém, um reencontro se tornou possível após os dois governos — inimigos ferozes por cerca de duas décadas, apesar de terem acertado um cessar-fogo em 2000 — assinarem um acordo de paz que, em questão de dias, pôs fim a uma geração de hostilidade.

Depois que o presidente da Eritreia, Isaias Afwerki, e o premier da Etiópia, Abiy Ahmed, apertaram-se as mãos, abraçaram-se e se comprometeram a restaurar os laços entre os dois países, Addisalem estava entre os mais de 400 passageiros que, na última quarta-feira, foram para Asmara, a capital eritreia, no primeiro voo direto entre os vizinhos africanos desde 1998.

Addisalem já não tinha mais esperanças de que iria se reunir com a família. Durante todos estes anos, ele tentou encontrar a mulher e as filhas, chegando até a pedir para o Comitê Internacional da Cruz Vermelha descobrir os contatos delas, mas não foi atendido.

Ele até considerou viajar para a Eritreia, através do Sudão, com a ajuda de traficantes de pessoas, mas desistiu de fazer a viagem por causa de seu custo exorbitante e dos riscos para sua segurança.

— Tudo me desencorajava. Eu costumava me perguntar se eu seria privado de ver minha família de novo por não ter dinheiro suficiente — disse Addisalem.

ANGUSTIA E FELICIDADE

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Há dois anos, seus amigos acabaram encontrando sua filha mais velha, Azmera, no Facebook. Addisalem passou, então, a trocar mensagens com ela e, com frequência, se percebia angustiado por não poder conversar pessoalmente.

— Eu apaguei e desmaiei um dia. Eu não consegui me controlar. Eu parei de falar com ela quando não aguentava mais (a angústia) — relatou o pai após sua chegada a Asmara.

Quando o compromisso de restaurar as relações entre a Etiópia e a Eritreia ganhou forma e a possibilidade de uma reaproximação aumentou ao longo dos meses de junho e julho, ele retomou o contato com sua filha. Eles concordaram em se encontrar na casa de um parente.

Na quinta-feira, perto de uma casa de tijolos no distrito de Geza Banda ‘Tilyan, em Asmara, Addisalem foi recebido com gritos de felicidade. Marido, mulher e filhas se abraçaram pela primeira vez em 18 anos. Num primeiro momento, era apenas conversa fiada.

— Eu vim, apesar de uma dor de dente — ele disse para a mulher.

— Estou um pouco doente também — respondeu Nitslal.

Ele, então, desabou em lágrimas quando foi abraçado por suas filhas.

— Foram anos de escuridão. A separação e a saudade foram implacáveis. Imagine alguém que acabou de ganhar na loteria. É como eu me sinto agora — descreveu Addisalem, lamentando o preço amargo pago por pessoas comuns nos dois lados do conflito.

— Isso (a guerra) era desnecessário. Eu perdi minha família por causa disso. De uma forma ou de outra, todos nós lutamos nessa guerra — afirmou.

Sua outra filha, Danayt, mal podia acreditar que estava vendo seu pai novamente:

— Ainda tenho medo de perdê-lo de novo.

Vencido pela emoção, Addisalem se esquivou de fazer qualquer pergunta sobre o passado, incluindo o motivo de sua mulher ter ido embora com suas duas filhas, embora o filho do casal tenha permanecido com ele.

Com a reconciliação entre Etiópia e Eritreia ainda embrionária, não ficou definido onde a família irá morar. Addisalem só olha para o futuro.

— Vou aproveitar o futuro com minhas filhas — concluiu.

FIM DA GUERRA ENTRE ETIÓPIA E ERITREIA

Etiópia e Eritreia declararam, no dia 9 de julho, que o “estado de guerra” em que estavam foi oficialmente encerrado, além de terem concordado em abrir embaixadas, desenvolverem portos e permitirem voos entre os dois países — sinais concretos de uma inesperada aproximação que pretende acabar com duas décadas de hostilidade. O anúncio promete acabar com um dos conflitos mais difíceis da África, que desestabilizou a região e fez os governos etíope e eritreu gastarem, por muitos anos, grande parte de seus orçamentos com as forças armadas. O conflito provocou cerca de 80 mil mortes.

Em abril deste ano, o primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, de 42 anos, chegou ao poder em Adis Abeba, a capital do país, o que abriu caminho para a normalização das relações. Abiy lançou reformas sem precedentes. Entre as mudanças estava o anúncio, no início de junho, de sua intenção de aplicar o Acordo de Argel assinado com a Eritreia em 2000 e as conclusões da comissão internacional sobre os limites fronteiriços. A iniciativa foi bem recebida pelo presidente eritreu, que enviou uma delegação a Adis Abeba no mês passado.

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