Ex-padre exibe mostra sobre inclusão no Museu de Arte Sacra

O Museu Arquidiocesano de Arte Sacra do Rio inaugura, neste sábado, a exposição “Sagrado primitivo: O intermédio de dois mundos”, do mineiro Geraldo Lacerdine. Com 27 pinturas, a mostra tem como foco a importância da inclusão social na arte sacra, gênero com o qual Lacerdine é bastante familiarizado. Ele era padre até janeiro deste ano. Agora, é artista.

— Sempre fui muito ligado ao mundo da arte. Mas quando me mudei para São Paulo, isso se intensificou. Foi gerando uma agenda, uma série de atividades e, mesmo com o meu trabalho ligado aos direitos humanos, a instituição (Ordem dos Jesuítas) se incomodou, com alguma razão. Vi que não dava para seguir nos dois caminhos, coloquei na balança e optei pela arte, pois não vivo sem arte. Não houve um conflito ideológico, mas sim um conflito de linguagem. Quando você é padre e fala, acaba falando pela instituição. Agora eu falo por mim mesmo — conta o ex-pároco que, além de artista plástico, também é ator.

Mae Negra.jpgEm seu trabalho, Geraldo Lacerdine prioriza figuras de negros, pobres, e excluídos da sociedade, numa proposta de contraponto ao que a arte sacra tradicionalmente sempre retratou, segundo o próprio artista. “Menino da Candelária”, por exemplo, é uma alusão aos oito meninos de rua que foram assassinados em 1993 no Rio de Janeiro, no episódio que ficou conhecido como a “Chacina da Candelária”.

cont— Acho que a arte como um todo tem um padrão eurocêntrico, que também dita a moda, um padrão que contempla a magreza, que relaciona a beleza ao branco, e a arte sacra tradicional também se pautou nisso. A gente sempre viu Jesus branco, às vezes de olho azul. Eu tento quebrar um pouco isso. Os pobres aparecem muito pouco na arte sacra tradicional e isso me incomoda muito. A exposição é um grito por igualdade — afirma.

Apesar de ter largado a batina, Geraldo diz que seu trabalho foi muito bem recebido pela comunidade religiosa. Aliás, foi Dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro, que viu as obras ainda em exibição na PUC-Rio, na Gávea, e resolveu levá-las para o Museu de Arte Sacra, situado no subsolo da Catedral Metropolitana de São Sebastião, no Centro.

— Eu estou defendendo os direitos humanos, então minha missão continua. Toda vez que promovemos a igualdade ou a justiça, o sagrado acontece. Acredito muito nisso, e me faz bem — completa Lacerdine.

Onde: Museu Arquidiocesano de Arte Sacra. Av. República do Chile 245, Centro (2240-2869). Quando: Até maio de 2019. Qua, das 9h ao meio-dia, e das 13h às 16h. Sáb e dom, das 9h ao meio-dia. Grátis.

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