Entre exemplos de 'nós contra eles', Rakitic guia a Croácia antes da final

77890149_Croatia%27s midfielder Ivan Rakitic controls the ball during the Russia 2018 World Cup se.jpgMOSCOU – Ivan Rakitic é o meia completo do Barcelona, que balança a rede numa final de Liga dos Campeões e se candidata a preencher o vácuo deixado por Iniesta. Ivan Rakitic é também, ao lado de Luka Modric, o centro criativo do meio-campo da Croácia, enxergada como zebra na final da Copa do Mundo. Na dicotomia entre leste e oeste europeu, Rakitic é visto como um talento natural, digno dos maiores feitos, quando empilha taças na Espanha. Mas causa estranheza ao chegar tão longe com o uniforme croata. O roteiro deste Mundial, o primeiro recebido pela Rússia, tem insistido em derrubar ideias pré-concebidas sobre o papel reservado a cada um. Para a Croácia de Rakitic, o ato final é virar a mesa continental justamente contra a França, uma das maiores potências da Europa Ocidental. E dona do favoritismo.

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Os jogadores croatas têm insistido, desde a vitória sobre a Inglaterra, em contestar o papel subalterno que julgam ter sido atribuído à seleção neste Mundial. Apontar o dedo para os críticos é, a bem da verdade, uma surrada estratégia de motivação. Mas também reflete, neste caso, um discurso de autoexaltação que tem ganhado força na Croácia, muitas vezes através de cânticos nacionalistas e gritos anti-Sérvia.

As tensões políticas nos Bálcãs fazem parte do mosaico do leste europeu. Explicam movimentos migratórios — como o dos pais de Rakitic, que deram ele à luz na Suíça —, turbulências econômicas e fissuras sociais. Não foi o acaso que empurrou o leste europeu para a falta de protagonismo após a dissolução da URSS e o fim da Cortina de Ferro nos anos 90. O futebol também sofre: faltam infraestrutura, organização e transparência para que o talento se configure mais frequentemente em força coletiva. Os líderes da seleção saem cedo para o exterior. Rakitic, então, nem passou pelo futebol croata: começou no suíço Basel, depois rumou para o alemão Schalke e por fim alcançou o estrelato na Espanha.

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— Este jogo não diz respeito apenas aos 23 jogadores, ao técnico, a nosso estafe. Haverá 4,5 milhões de jogadores no campo carregando uns aos outros — disse Rakitic, em referência ao tamanho da população croata. — Sabemos que é o maior jogo de nossas vidas. Quando você coloca a camisa croata, você se transforma. Vira outra pessoa. Pago qualquer preço pela minha Croácia.

O nacionalismo e o “menosprezo” são temáticas que grudaram no discurso croata, e a Europa rica — representada na final pela França — é o principal alvo. Rakitic e Modric, referências técnicas e mentais do time, cutucaram o oba-oba da imprensa inglesa antes da semifinal, lembrando que jogos se ganham em campo. O técnico Zlatko Dalic reclamou que não só seus jogadores, mas também os treinadores croatas são vistos com desconfiança na porção ocidental da Europa.

— Não somos respeitados por lá, apesar de os técnicos croatas terem alcançado grandes resultados. Na Europa, só olham para quem tem fama — atacou Dalic. — Chegamos à semifinal cercados por comentários negativos. “Por que jogam deste ou daquele jeito?”. Quem se importa? Estamos na final.

Rakitic, contudo, tem mais a oferecer do que a oratória do “nós contra eles”, do “leste contra oeste”, ou qualquer outro dualismo. Seu desempenho tático é prova: percorre todas as faixas do campo, ataca e marca, com um estilo que agrega mais do que separa. Fluente em cinco línguas, segundo perfil publicado no jornal “Guardian”, Rakitic se adaptou a complementar seu estilo ao de Modric: rivais na Espanha, um por Real e outro por Barcelona, somam forças e principalmente talentos na seleção.

O melhor exemplo de que a lógica binária pode ser superada foi dado pelo próprio Rakitic ontem, em entrevista coletiva. O tenista sérvio Novak Djokovic foi criticado por políticos de seu país após manifestar torcida pela Croácia na reta final da Copa do Mundo. Sérvios e croatas, como se sabe, tiveram seus atritos na fragmentação da Iugoslávia. Perguntado sobre o recado de Djokovic, Rakitic fez questão de devolver a gentileza.

— Tenho que tirar meu chapéu para ele. Torço por ele em Wimbledon, queria vê-lo jogar a final no domingo, seria fantástico se nós dois tivéssemos um grande dia. Somos seres humanos acima de tudo, temos que deixar a história para trás. Para mim, Djokovic é um fantástico atleta e uma fantástica pessoa. Recentemente nos encontramos em Miami. Desejo toda a sorte do mundo a ele e espero que ambos celebremos no domingo.

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