Em busca do centro

Uma das marcas da eleição presidencial de 2018 foi a implosão do centro: de um lado, o ex-capitão Jair Bolsonaro com sua retórica agressiva de ódio, a defesa molestadora da ditadura, da tortura e da intolerância; do outro, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad e suas visitas semanais ao então presidiário Lula em busca de conselhos, com um discurso que aprofundou o radicalismo e o antipetismo. O tucano Geraldo Alckmin, o candidato do establishment em eleições passadas, não chegou aos 5%; Marina Silva, que beirou os 20% nos pleitos anteriores com sua proposta de romper a polarização (que então se dava entre tucanos e petistas e tinha tintas muito mais leves), registrou insignificante 1% dos votos. Passado mais de um ano daquela disputa, pode-se dizer sem titubear que o balanço foi negativo. O extremismo em alto volume permanece o tom corrente na política brasileira, em especial quando parte do megafone instalado na portaria do Palácio da Alvorada. Ideias ponderadas, propostas de consenso por meio da negociação, acenos para adversários políticos, tudo isso se resume a sussurros que não alcançam a maior parte da população, e do eleitorado.

É por isso que, mesmo ainda tão longe da eleição de 2022, já se discute quem são os possíveis candidatos de “centro” que teriam chances de quebrar o radicalismo que atualmente se apresenta entre o bolsonarismo e o petismo. Depois da reforma da Previdência, e se não houver novas (e plausíveis) revelações do caso Queiroz, Bolsonaro tem chances de chegar competitivo até lá. Nada indica que alterará uma rota que considera vitoriosa por enquanto, apesar das lanhadas em si e nos adversários, que trata como inimigos. Lula não tem mais a força que julga possuir, mas ainda assim deve haver um candidato do petismo, que tende a ganhar projeção na mesma medida dos ataques do presidente.

Nesse cenário, alguns dos nomes cotados para quebrar esse duopólio do ódio são o atual governador de São Paulo, João Doria (PSDB), egresso da costela do bolsonarismo, mas sem seus excessos; o apresentador de TV Luciano Huck; e, nos últimos tempos, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. A força de cada um ainda dependerá da conjuntura econômica, da dinâmica entre petismo e bolsonarismo, e até do surgimento de novos nomes que consigam se viabilizar.

Nesta edição, ÉPOCA mira seus holofotes sobre o mais novo deles, tanto na idade (tem apenas 34 anos) quanto na projeção nacional (até pouco tempo atrás, seu maior cargo havia sido o de prefeito de Pelotas). No campo político-administrativo, o tucano gaúcho aprovou um espinhoso e necessário pacote de reformas do funcionalismo; no pessoal, enfrenta de maneira serena os preconceitos e ataques baixos do submundo das redes sociais. Os próximos anos vão mostrar se ele sobreviverá ao moedor de carne da política brasileira e chegará forte e viável a 2022, qualquer que seja o cargo que almeje disputar, ou se sucumbirá pelo caminho.


Com Agências | oglobo