Debate democrata desta quinta será o primeiro embate entre Biden e Warren, líderes nas pesquisas

NOVA YORK — Ele costuma tagarelar e se enganar com as palavras, enquanto ela cursou a faculdade com a ajuda de uma bolsa concedida em razão de sua habilidade em debates estudantis. Ele é um centrista apontado pelas pesquisas preliminares como o candidato democrata com maior probabilidade de derrotar Donald Trump. Ela, por sua vez, é uma autoproclamada progressista com posições bastante à esquerda, cujo apelo ainda é motivo de preocupação caso seja a representante democrata na eleição presidencial.

Com estilos, posicionamentos e estratégias para ganhar a eleição completamente divergentes, o ex-vice-presidente Joe Biden e a senadora Elizabeth Warren são opções diametralmente opostas para os eleitores do Partido Democrata — e, de suas maneiras, representam duas visões que competem sobre como a legenda deverá se portar nos meses a seguir.

Holofotes centrados no remodelamento da política americana pelas mãos do povo, uma conversa com eleitores pelo país e um guia em meio do incessante ciclo de notícias — todas essas tensões serão expostas na noite desta quinta-feira, em Houston, quando os dois candidatos se enfrentaram pela primeira vez em um debate presidencial.

A disputa entre Biden, líder das pesquisas a 14 meses da eleição, e Warren, porta-bandeira de uma ala mais de esquerda do Partido Democrata que vem crescendo nas intenções de voto, é bastante esperada.

Diferença de estratégias

É sabido que a estratégia de Biden baseia-se em sua vasta experiência como senador e vice-presidente. Seus aliados e conselheiros, entretanto, deram a entender que o vice de Obama também vem trabalhando para tirar proveito de um dos alicerces da campanha de Warren: sua extensa e bastante progressista plataforma política. O objetivo de Biden é utilizar os pontos defendidos pela concorrente para reforçar seu próprio histórico de conquistas liberais, mesmo em meio à desafiadora realidade política da capital americana.

É provável que Warren, por sua vez, não opte por ataques pessoais premeditados, como os realizados pela senadora californiana Kamala Harris durante o primeiro debate. Ela, contudo, desponta como uma habilidosa defensora de uma “grande mudança estrutural”, mostrando-se capaz de defender suas propostas à esquerda.

Durante o segundo debate presidencial, quando sua plataforma foi implicitamente criticada como “irreal”, Warren respondeu que não entendia o porquê de concorrer à Presidência “simplesmente para falar sobre aquilo que realmente não podemos fazer e não devemos lutar por.”

Nesta quinta-feira, Biden, veterano em Washington, deverá defender o pragmatismo, focando em como conquistar as prioridades democratas em um momento de polarização política. Warren, por sua vez, terá uma nova oportunidade de ressaltar a urgência de consertar aquilo que considera ser um sistema político que beneficia os ricos e poderosos às custas dos trabalhadores.

Um risco para Biden é que, enquanto ele se conecta bem com eleitores em interações pessoais, costuma ser irregular e titubeante quando sobe no palco. Conforme a temporada de debates vem se intensificando, o ex-vice-presidente tem sido alvo de críticas por uma série de gafes e declarações imprecisas.

— O vice-presidente Biden já provou não ser muito bom em performances públicas — disse Steve Drahozal, presidente do Partido Democrata no distrito de Dubuque, em Iowa. — Eu sei que ele acha que suas gafes não são um problema tão grande, mas ele vai enfrentar uma candidata muito disposta, inteligente e articulada que é capaz de enquadrar as questões de uma maneira muito boa.

Oportunidade para Warren

Uma boa performance de Warren nesta quinta-feira poderá catalisar ainda mais sua já campanha nacional e, especialmente em Iowa, estado no qual acontecerão as primeiras eleições primárias — e onde Biden já enfrenta desafios.

A equipe de Biden não tem ilusões sobre as habilidades de Warren em debates e sua ascensão nas pesquisas. Pessoas próximas à campanha do vice-presidente reconhecem, mas insistem que não estão focando apenas na senadora do estado de Massachusetts.

Sua equipe também está convencida de que o eleitorado democrata é bem mais moderado do que alguns ativistas sugerem e vê com bons olhos debates sobre questões como um sistema público de saúde — Biden apoia uma opção pública, mas se opõe a eliminar os planos privados, algo que Warren defende — e sobre quais programas sociais devem ser gratuitos. Aliados também estão ansiosos para aprofundar o argumento que Biden vem dando prévias nos últimos dias: de que não é suficiente ter planos ambiciosos se tais propostas não conseguirão sobreviver na realidade política de Washington.

Durante os primeiros debates, Warren não enfrentou escrutínio de outros candidatos. No privado, aliados de Biden têm esperança de que ela seja pressionada por outros candidatos para dar mais detalhes sobre suas propostas — conforme sua popularidade aumenta, ela se torna naturalmente um alvo para ataques.

Ainda assim, veteranos democratas alertam que, apesar do bom momento, a senadora ainda precisa trabalhar para dissipar preocupações relacionadas à sua agenda: entre os democratas, há dúvidas sobre como sua plataforma progressista repercutiria durante as eleições gerais.

— Elizabeth provavelmente precisa mostrar que está pronta para acolher a parte centrista dos Estados Unidos — disse Sylvia Larsen, ex-presidente do Senado de New Hampshire, que também questiona o potencial de Biden para mobilizar a parte mais jovem do eleitorado. — Joe já tem este centro. Será que Elizabeth conseguirá voltar para o centro caso seja nossa candidata?

Warren, por sua vez, desafia a ideia de que um candidato mais moderado terá maiores chances de ser eleito. Em um evento de campanha no sábado, ela disse à multidão que “nós não escolhemos um candidato no qual não acreditamos porque estamos com medo”. Em um outro evento no início do mês, em New Hampshire, ela alertou contra “beliscar pelas bordas”, sem mencionar especificamente o nome de Biden.

— Eu acho que aquilo que vai nos levar em frente como democratas é não jogar um jogo cauteloso — disse.

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