Coronavírus: fronteiras, portos e 'fake news' preocupam estados brasileiros

BRASÍLIA — Os planos de contingência elaborados pelos estados para enfrentar o novo coronavírus no Brasil trazem, em linhas gerais, muitas orientações e cuidados já apregoados pelo Ministério da Saúde, como a necessidade de isolar casos suspeitos, mas também abordam algumas peculiaridades regionais.

O de Mato Grosso do Sul, por exemplo, trata da necessidade de cooperação com o Paraguai, país com o qual faz fronteira. O do Amazonas destaca a saúde dos índios que vivem no estado. Os planos de oito estados mencionam seus portos, que podem servir de porta de entrada para o vírus, como o de Santos, o maior do país, localizado no litoral paulista.

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Até o momento, 25 estados repassaram seus planos para o Ministério da Saúde. Apenas Tocantins e o Distrito Federal não fizeram isso. No caso do Tocantins, O GLOBO teve acesso ao documento por meio da Secretaria de Saúde estadual. Os planos trazem medidas para evitar a entrada do vírus no país, identificar casos suspeitos e tratar pessoas doentes.

O novo coronavírus provoca febre e sintomas respiratórios, já tendo matado 1.369 pessoas, quase todas na China. O grande potencial de “fake news”, ou seja, notícias falsas, preocupa a maioria dos estados. Eles querem evitar o pânico e eventuais reações contra quem vier a contrair o vírus.

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Em nota, a Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro destacou, por exemplo, que as informações sobre a doença devem ser divulgadas o mais rapidamente possível à sociedade “para, entre outras coisas, combater a desinformação e as perigosas fake news”. Já o plano de Goiás fala da necessidade de monitorar redes sociais, como Twitter e Facebook, para “esclarecer rumores, boatos e informações equivocadas”.

O de Mato Grosso, por sua vez, destaca: “Diante da sociedade em rede, que tem acesso instantâneo e quase ilimitado a dados e informações, além das ‘Fake News’, é essencial o estabelecimento de comunicação com os diversos públicos em tempo adequado para impedir ou mitigar danos desencadeados por ‘notícias virais’ que causem pânico ou direcione movimentos de massa na busca por assistência à saúde por temores infundados.”

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Dos 11 estados fronteiriços, apenas o Pará e o Paraná não fazem menção a cuidados a serem seguidos na divisa com outros países. Os planos dos demais recomendam que, nos pontos de passagem, situações suspeitas devem ser informadas à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que é um órgão federal, mas as medidas posteriores de atendimento serão tomadas pelas equipes de saúde locais.

Dos planos analisados, os de Mato Grosso do Sul, de Rondônia e do Amazonas são os que falam em cooperação com outros países. Entre as medidas em Mato Grosso do Sul estão a articulação com as cidades da fronteira, o preparo do hospital de uma delas — Ponta Porã — com a presença de um médico infectologista, e ações em conjunto com o Paraguai.

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O de Rondônia menciona a cidade de Guajará-Mirim, na fronteira com a Bolívia, e a necessidade de uma articulação junto às autoridades do país vizinho.

O do Amazonas fala em “articular com as autoridades e órgãos de saúde na região da Tríplice Fronteira (Brasil, Colômbia e Peru)” e também com as de outros estados com os quais faz divisa. O estado também diz que é necessário ter cooperação com os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs), ligados ao Ministério da Saúde, “para o fortalecimento de ações de vigilância e aprimoramento da detecção de possíveis casos suspeitos nos serviços de saúde”.

Todos os 26 planos analisados lembram da importância de notificar as autoridades sanitárias municipais, estaduais e federais, em até 24 horas, todos os casos suspeitos que aparecerem. O plano do Distrito Federal, ao qual o GLOBO não teve acesso à íntegra, também faz essa recomendação.

No plano de contingência de Goiás, não há menção à base aérea de Anápolis, localizada no estado, onde ocorre a quarentena de 58 pessoas que passaram pela China. O de Roraima, embora cite a fronteira com a Venezuela, não prevê nenhuma ação específica voltada aos imigrantes do país vizinho, onde o sistema de saúde entrou em colapso e é fonte de preocupação como possível meio de entrada de doenças no Brasil.

Carnaval

Os planos do Rio de Janeiro e da Bahia não trazem ações específicas para o Carnaval, mas medidas que serão observadas tanto no período festivo como fora dele. No Rio de Janeiro, o plano aborda não apenas os hospitais estaduais e dos municípios, mas também os federais. O estado é onde há mais unidades de saúde mantidas pela União.

Os planos do Ceará, do Pará, da Paraíba, de Pernambuco, do Rio Grande do Norte, do Rio Grande do Sul, de Rondônia e de São Paulo mencinonam os portos localizados nesses estados. O de Pernambuco, por exemplo, destaca que os portos do Recife e de Suape já têm implementados planos de contingência para emergência em saúde pública.

Nos oito estados, a fiscalização sanitária dos portos, assim como dos aeroportos, é de responsabilidade da Anvisa, que está cooperando com os órgãos estaduais na eventualidade de haver casos suspeitos ou confirmados de coronavírus.

O governo federal vem defendendo o isolamento em casa para casos leves, sem a necessidade de hospitalização, que seria reservada apenas para casos graves. Dos 26 planos analisados, 20 — Acre, Amapá, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rondônia, Roraima, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe e Tocantins — vão na mesma linha, além do plano do Distrito Federal.

Os outros seis planos são omissos nesse ponto. Alguns estados também falam de um “etiqueta respiratória”, ou seja, medidas a serem tomadas de forma a evitar a propagação do vírus.

Em linhas gerais, os planos destacam medidas de prevenção, como lavar as mãos; listam seus hospitais de referência; pregam a necessidade de capacitação dos profissionais de saúde; fornecem contatos telefônicos e e-mails das autoridades sanitárias estaduais; definem a quantidade de leitos hospitalares a serem disponibilizados dependendo da situação; e orientam a forma correta de coletar amostras de pacientes para exames laboratoriais.

No caso do Tocantins, há até mesmo uma recomendação detalhada para a coleta de amostras de pessoas mortas.

— Nós estamos absolutamente alinhados com todas as orientações, afinados no discurso, a mesma linha, as mesmas medidas. Os planos de contingência são, em linhas gerais, muito próximos, com algumas diferenças em relação a questões regionais — avaliou o presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), Alberto Beltrame, que também é Secretário Estadual de Saúde do Pará.

O tamanho dos planos varia muito. Vão de 11 páginas, caso do Rio de Janeiro, a 136, caso do Rio Grande do Norte. A publicação dos documentos no site do Ministério da Saúde serviu também como uma forma de constranger os estados que ainda não tinham um a elaborá-lo logo, como deixou claro o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, em entrevista coletiva na última segunda-feira no Ministério da Saúde.

Inicialmente, os estados forneceriam seus planos até 10 de fevereiro, mas o prazo foi adiado para o dia 12, para que também pudessem contemplar as medidas adotadas pelas secretarias de saúde das capitais.

— A gente vai publicar todos os planos na nossa página. Os que não tiverem remetido, a gente vai cobrar junto ao Conass e ao Conasems (Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde). E vocês vão saber quais os estados que fizeram seus planos, como está contemplado o plano. E vocês vão poder também, juntos conosco, cobrar das autoridades aqueles que não fizeram seu plano de contingência — disse Mandetta na segunda.


Com Agências | oglobo


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