Chargista repudia ação polêmica de vereadores em escola: ‘Intimidação não vai nos calar’


Estudantes de São Carlos (SP) produziram cartazes sobre preconceito religioso e sexual para um trabalho escolar. Material foi colado em mural e retirado por um dos parlamentares. Charge de Carlos Lattuff sobre polêmica em escola de São Carlos
Arquivo pessoal
Após a polêmica envolvendo vereadores e professores da Escola Municipal de Educação Básica (Emeb) Carmine Botta de São Carlos (SP) por conta de um trabalho escolar sobre intolerância religiosa e sexual, o chargista Carlos Lattuff, autor do desenho usado pelos estudantes, procurou o G1 na noite da quarta-feira (19) para se manifestar sobre o caso.
“Repudio totalmente a atitude dos parlamentares, inclusive o fato de terem arrancado um dos cartazes produzidos pelos alunos dentro da escola, em uma ação arrogante e autoritária. Estão corretos os alunos e alunas que realizaram esse trabalho escolar. Esse tipo de intimidação não vai nos calar”, declarou Latuff.
Na terça-feira (18), quatro vereadores foram até a Emeb questionar o conteúdo do trabalho desenvolvido por alunos do 9º ano sobre intolerância religiosa e sexual.
O material foi colado no mural em um dos corredores da escola e chegou a ser retirado pelo vereador Leandro Guerreiro (PSB). “Vou combater sempre o assunto sexual para as nossas crianças, eu não aceito”, disse o parlamentar (veja os posicionamento dos vereadores abaixo).
Intolerância
Cartaz sobre intolerância religiosa produzido por alunos de São Carlos (SP)
Arquivo Pessoal
Conhecido em todo o mundo por suas charges polêmicas, Latuff afirmou que há intolerância religiosa no Brasil, particularmente contra religiões de matriz africana, por parte de igrejas neopentecostais.
“Muitas delas tratam como ‘demônios’ as entidades Umbanda e Candomblé. A imprensa está repleta de notícias de terreiros atacados por evangélicos. Isso é um fato, não se pode negar”, disse.
Chargista Carlos Lattuff, autor do desenho usado pelos estudantes
Felipe Gonçalves
No que se refere ao movimento de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Travestis (LGBT), Latuff argumentou que a comunidade também vem sendo alvo de intolerância por parte das mesmas igrejas evangélicas. “Pastores que pregam a chamada ‘cura gay’ e atribuem a homossexualidade ao diabo”, afirmou.
“Expresso aqui minha solidariedade aos estudantes da Emeb Carmine Botta e me coloco a disposição”, justificou. O chargista fez um desenho simbolizando o acontecido na escola. “Esse tipo de agressão não pode sair barato”, concluiu.
Polêmica
Cartaz sobre homofobia produzido por alunos de São Carlos (SP)
Arquivo Pessoal
Após as discussões feitas em sala de aula, os estudantes produziram cartazes que traziam dados estatísticos sobre os temas propostos.
Em um dos cartazes, havia um desenho, produzido em 2013 pelo chargista Latuff, de um cidadão que, em poder de um livro, simulava a agressão de duas mulheres adeptas à religião africana com a frase “sai, tolerância”.
Além disso, os alunos escreveram frases como “intolerância religiosa é crime de ódio”, “Exu não é demônio” e “somos todos iguais”.
Outro cartaz abordava o respeito com a comunidade de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Travestis (LGBT) e tinha como mensagem destacada a frase “ninguém precisa ser gay para lutar contra a homofobia”.
Violência ao espaço escolar
O secretário de Educação de São Carlos, Nino Mengatti
Reprodução/ EPTV
De acordo com o secretário municipal de Educação, Nino Mengatti, os vereadores alegaram que aquilo estava ferindo os princípios éticos e religiosos, porque, segundo eles, incitavam a violência contra uma religião.
“Dentro do que foi proposto, não foi contra ninguém. Um dos vereadores arrancou os cartazes de maneira fascista, não podemos permitir isso”, declarou o secretário.
A diretora pedagógica da Emeb, Cilmara Seneme Ruy, disse que a ação do vereador foi uma violência no espaço escolar que tentava pregar o contrário.
“Ali foi vivenciado, na prática, o que aquelas crianças e adolescentes estavam aprendendo a não fazer”, acrescentou.
O que dizem os vereadores
O vereador Leandro Guerreiro (PSB) disse que retirou os cartazes e os levou para a sala da direção para ouvir a opinião dos professores e dos vereadores. Ao G1, ele afirmou que não foi um ato violento e que faria novamente.
“Vou combater sempre o assunto sexual para as nossas crianças, eu não aceito. Ali na questão tinha apologia ao LGBT, porque tem bandeira no trabalho, e tem também a imagem de um cristão segurando a bíblia agredindo mulheres. Não é correto isso. Prega-se intolerância agindo intolerante? Isso não condiz com a realidade”, ressaltou.
O vereador Edson Ferreira (PRB) disse que é preciso respeitar a todos. “A gente não pode tirar o mérito das crianças, deve-se discutir intolerância nessa idade, mas há uma preocupação dos pais sobre o que se passa nas escolas, por isso a gente foi até lá. O trabalho é importante, é válido, mas é preciso ter uma preocupação com as crianças dessa faixa etária”, disse.
Para o vereador Lucão Fernandes (MDB), o trabalho feito pelas crianças conscientiza sobre preconceito. “Esse trabalho tem que ser feito, tem que se falar sobre preconceito, a gente tem que falar em casa com nossos filhos e familiares sobre o respeito. A gente tem que conviver e amar as pessoas”, declarou.
Já o vereador Moisés Lazarine (DEM) afirmou que foi em busca do diálogo e ressaltou que a imagem divulgada no cartaz é intolerante.
“Não se combate intolerância, com outra intolerância. Fascismo existe em querer apontar uma única religião como a responsável pelo preconceito. Lamento a postura da Secretaria de Educação”, disse.
*Sob supervisão de Fabio Rodrigues, do G1 São Carlos e Araraquara.
Veja mais notícias da região no G1 São Carlos e Araraquara.
Source: http://g1.globo.com/dynamo/rss2.xml

Loading...