Bonecas de pano brasileiras fazem a alegria de meninas africanas

Bonecas de pano confeccionadas por voluntárias são enviadas para a África

Bonecas de pano confeccionadas por voluntárias são enviadas para a África
Edu Garcia/R7

A alegria toma conta de um grupo de meninas que vive em Guiné-Bissau, na África. É a felicidade de quem recebeu seu primeiro brinquedo, uma boneca de pano. O vídeo gravado por educadores de organizações não governamental foi um presente para Michelli Bordinhon, idealizadora do projeto Bunekas.

Ela é responsável por enviar para a África bonecas de pano, negras, acompanhadas de vestidos e de calcinhas para as garotas. Para os meninos, bermuda e bola.

Psicóloga de formação, Michelli começou o projeto no início do ano passado após uma visita à Guiné-Bissau. O marido, médico, foi até o país como voluntário. Mandou uma série de vídeos e de fotos que mostravam a situação local. O que mais impressionou Michelli foi ver as meninas ali, paradas, apenas observando os meninos brincarem com suas bolas e carrinhos improvisados.

“Na cultura de Guiné-Bissau, as meninas devem trabalhar e ajudar a família, cabe a elas cuidar dos irmãos mais novos e com todas essas responsabilidades, não podem brincar”, conta.

A situação em Guiné é delicada, o país tem um dos mais baixos PIBs (Produto Interno Bruto) per capita do mundo, assim como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) — mais de dois terços da população vive abaixo da linha da pobreza. Aids e malária também castigam a população. A expectativa de vida no país é de 49 anos. Comparativamente, na Suécia, um dos países com maior IDH, a expectativa sobe para 82 anos. A economia do país africano é basicamente agrícola.

Michelli Bordinhon: resgate do brincar e da autoestima

Michelli Bordinhon: resgate do brincar e da autoestima
Edu Garcia/R7

“É cultural que as mulheres tenham muitos filhos, de 8 a 10. Elas são as responsáveis por caminhar quilômetros com um bebê nas costas, os outros ao seu redor, equilibrando um balde com água na cabeça”, diz. Essa é a cultura local, as mulheres trabalham muito e não tem os mesmos direitos que os homens.

Não é fácil ser menina em Guiné-Bissau, elas crescem com essa cultura e com a violência. “O abuso sexual infantil é recorrente no país. Praticamente não falam sobre o assunto e não é natural que uma criança passe por isso”.

Projeto Bunekas

Com todos esses dados em mãos, Michelli visitou o país em maio do ano passado. “Muitas pessoas me perguntam porque a África e não o Brasil. Estamos falando de uma situação extrema, dos piores índices de desenvolvimento, de meninas que não tem acesso a praticamente nada, muito menos a um brinquedo”.

O projeto Bunekas nasce assim: da vontade que essas crianças possam brincar. Para confeccionar as bonecas de pano, a psicóloga trocou o consultório pelas agulhas e linhas. Foi pesquisar moldes, cores e meios de enviar os brinquedos até a África.

“Não sabia pregar um botão. Fui pesquisar, estudar, aquele projeto se tornou uma obsessão, nem dormia direito pensando naquelas crianças”.  Um mês depois, as primeiras bonecas estavam prontas.

Bonecas negras usando turbante, cabelos cacheados, roupas coloridas e estampadas e calçando sapato. No bolsinho do vestido vai um recadinho: “Você é linda” escrito no idioma local. Além do brinquedo em si, as bonecas têm a função de resgatar a autoestima dessas crianças e de falar sobre abuso e cuidado pessoal.

Os brinquedos seguem para a África acompanhados de vestidos (mesma estampa do tecido da roupinha da boneca) e calcinhas. Os pacotes são enviados para profissionais de saúde, educadores de escolas, igrejas e organizações não-governamentais.

“A entrega não é aleatória. Em um lugar marcado pela fome, não faria sentido sair distribuindo brinquedo. A proposta é que a identidade seja trabalhada com essas meninas, que elas se reconheçam nas bonecas, que possam se projetar ali suas emoções”.

Por essa razão, o rosto das bonecas não expressão. Cada criança dá a interpretação que quiser, lidam com elas de acordo com o que estão sentindo. Elas são usadas também para falar de abuso. “A calcinha é uma forma dos educadores ou profissionais de saúde falarem sobre o corpo, que não deve ser tocado, nem violado”.

Como a memória olfativa é uma forma que o cérebro armazena as lembranças, as bonecas recebem banho de óleo essencial de bergamota. Uma forma de lembrar da boneca cada vez que estiverem perto da fruta. “Pesquisando sobre a essência, descobrimos que ela é repelente de mosquitos, o que pode ajudar contra a malária e também é usada para tratamento de depressão infantil”.

Rede

Na visita a Guiné-Bissau, em maio, seguiu a primeira leva de bonecas, 100 no total. A divulgação feita pelo boca a boca levou pessoas interessadas em ajudar no projeto.

Pouco mais de um ano, 20 grupos com 300 voluntários dos mais variados perfis e idades estão espalhados pelo país confeccionando as bonecas. Só em São Paulo, no grupo que se reúne na Barra Funda às terças-feiras, são 60 pessoas envolvidas.

Já foram enviadas 2500 bonecas para Guiné-Bissau, Senegal, Burkina Faso, Moçambique e Angola.

No dia 22 de agosto, Michelli e sete ‘bunequeiras’ como são chamadas as voluntárias irão até Moçambique não apenas levar os brinquedos, mas também oferecer oficinas de capacitação para os educadores e também curso de costura. A ideia é que as mulheres africanas possam aprender um ofício, confeccionar as próprias bonecas e venham a ter uma fonte de renda.

Source: http://noticias.r7.com/feed.xml

Loading...