As aflições da esquerda marcaram encontro mundial de lideranças

Em busca de referências internacionais para lidar com o fenômeno da ascensão da direita mundial, Fernando Haddad, ex-candidato do PT à Presidência, participou no último dia 30 de um evento promovido pelo Instituto Sanders, do senador Bernie Sanders, no estado americano de Vermont. No ato, com a presença, entre outros, da atriz Susan Sarandon e de lideranças políticas da esquerda, como os prefeitos de Nova York, Bill de Blasio, e de Barcelona, Ada Colau, houve o lançamento do movimento Internacional Progressista. Segundo o petista, o comentário que mais ouviu sobre a vitória de Bolsonaro por lá foi: “I am sorry”.

“Isso eu ouvi de umas 50 pessoas. As pessoas gostam do Brasil”, afirmou Haddad. O manifesto da Internacional Progressista diz que há uma “guerra global contra trabalhadores, meio ambiente, democracia”, promovida por uma rede de facções de extrema-direita que trabalha para “acabar com os direitos humanos, silenciar dissidentes e promover a intolerância”.

O documento também fala na necessidade de construir um movimento pela justiça global. Numa adaptação da frase que ficou famosa no Manifesto Comunista, a Internacional Progressista conclama: “É tempo dos progressistas do mundo se unirem”. O texto é assinado por Yanis Varoufakis, ex-ministro das finanças grego e líder do grupo DiEM25, que reúne verdes, esquerdas radicais e liberais em defesa da União Europeia, e Jane Sanders, mulher de Bernie e cofundadora do Instituto Sanders. Haddad foi ao lançamento do movimento a convite de Varoufakis e teve uma participação pequena, com uma rápida fala na cerimônia.

Num jantar depois do evento, conseguiu se sentar ao lado de Bernie Sanders graças ao ator Danny Glover, que cedeu seu lugar à mesa. Casado com uma brasileira, Glover mantém ligação com o PT e chegou até a visitar o ex-presidente Lula na cadeia. Mesmo com a proximidade física, o petista diz ter tido pouca chance de conversar com o senador por causa do assédio ao anfitrião. “Conversei mais com a esposa dele, que é muito envolvida [no movimento]”, contou.

Haddad e o ex-ministro grego se aproximaram por meio da revista Jacobin, lançada no começo da década e consolidada hoje como principal voz da esquerda americana, que fez reportagens sobre o petista e chegou a publicar um extrato de um livro seu sobre os 150 anos do Manifesto Comunista.

A ideia é fazer o grupo crescer com adesão de políticos do partido espanhol Podemos e da aliança Geringonça, que governa Portugal, além da frente ampla uruguaia de Pepe Mujica e López Obrador, presidente recém-empossado do México. Se ganhar corpo, a Internacional Progressista poderia servir como uma contraposição ao Movimento, grupo de novos líderes de direita que Steve Bannon, ex-estrategista da campanha de Donald Trump, tenta formar.

Na próxima semana, Haddad discutirá a formação do bloco em uma viagem que fará ao Uruguai. Ele pretende se encontrar com o próprio Mujica e com o atual presidente do país, Tabaré Vázquez, também integrante da frente ampla. Em sua tentativa de articulação internacional, o presidenciável do PT chegou a convidar Sanders e Varoufakis para visitarem o Brasil, mas até agora não houve uma resposta positiva, segundo Haddad, por causa dos projetos políticos locais de ambos. O americano se prepara para iniciar sua campanha para as primárias presidenciais para a disputa de 2020 e o grego trabalha em sua candidatura ao Parlamento europeu.

Para o brasileiro, suas afinidades com Sanders, apresentado pela imprensa americana como esquerdista radical, aumentaram nos últimos tempos. “Estamos ficando parecidos em razão das circunstâncias”, afirmou.

Além do encontro em Vermount, Haddad participou de debates em universidades de Nova York, um deles com Varoufakis, ao longo de um total de cinco dias nos Estados Unidos. Na mala, trouxe dois livros: Como funciona o fascismo, de Jason Stanley, professor de filosofia da Universidade Yale, e From fascism to populism in history (Do fascismo ao populismo na história, na tradução livre), do chefe do departamento de história da New School of Research em Nova York, Federico Finchelstein.

Haddad avalia que o grande drama vivido pela esquerda mundial hoje é encontrar uma resposta à crise financeira de 2008. Como solução, em sua visão, os políticos de centro que estavam nos governos socializaram os prejuízos provocados pelas bolhas dos diversos setores e passaram a conta para a população. Porém, o petista não acredita que os líderes da corrente ideológica estejam perdidos. “Não cabe a palavra. Estamos diante de um desafio novo, que é o pós-2008. Acho que a esquerda estava perdida antes de 2008 porque achava que o 2008 não fosse acontecer.”

O adversário de Bolsonaro no segundo turno da eleição acredita que os governos de direita são uma ameaça aos direitos conquistados no mundo desde o século passado. Essas conquistas foram intensificadas após a Segunda Guerra Mundial e garantiram o voto aos negros, às mulheres e à parcela mais pobre da população. Mais recentemente, a proteção do meio ambiente também entrou nessa agenda. “Tudo isso de alguma maneira está sob ameaça com a escalada da onda conservada. É esse sonho comum que está sendo defendido.” Haddad

Para se contrapor, a esquerda terá de dizer, na visão do petista, de forma clara como lidará com temas espinhosos, como finanças globais, fundamentalismo religioso e xenofobia. “ Tem de ter uma agenda progressista”, avaliou. Ficar só na defensiva não vai adiantar. “O grande desafio é entender que é importante ser defensivo para proteger direitos, mas não será suficiente, em minha opinião. A esquerda vai ter de colocar o negócio no lugar. Vai ter de haver uma renovação do pensamento mais progressista, com novas ideias.”

No Brasil, admitiu Haddad, a mobilização para garantir a defesa de temas que podem agregar lideranças além da esquerda, como meio ambiente e a oposição à flexibilização do porte de armas ou o projeto Escola sem Partido, é mais complicado por um ingrediente único: o antipetismo, que continua a ser explorado por Bolsonaro mesmo depois das eleições. Políticos ligados de legendas como o PSDB têm descartado integrar qualquer frente que envolva o PT, mesmo se compactuarem com a causa. “O importante é que [o parlamentar] vote contra. A estratégia correta é tematizar as coisas. Não precisa formalizar. Essa é a única possibilidade de dar certo uma oposição que vise resguardar o direito da população”, disse o ex-prefeito de São Paulo.

Diante das dificuldades, para Haddad, qualquer outro caminho seria em vão. “É perda de energia querer criar um bloco monolítico de situação ou oposição ao que vem pela frente porque tudo e muito novo e os recortes vão ser diferenciados.”

Abalada após a vitória de Jair Bolsonaro (PSL), a esquerda brasileira procura um rumo para se contrapor ao novo governo. Enquanto vê o outrora aliado Ciro Gomes (PDT) se articular para tentar ocupar o posto de líder da oposição brasileira, Haddad acredita que poderá manter o espaço mesmo sem nenhum cargo no PT. Seu plano é voltar à vida de professor em 2019 e fazer política nas horas vagas. Ele avalia que os líderes políticos precisarão de uma estratégia muito bem afinada para lidar com o governo Bolsonaro e evitar queimar energia. Haddad se orgulha de ter previsto em 1998 a ascensão da extrema-direita no mundo. Para o candidato derrotado do PT à Presidência, os riscos de perdas de direitos são comuns tanto no Brasil como no restante do mundo. Será necessário encontrar uma nova agenda.

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