90 anos da descoberta à extinção: Mudanças climáticas ameaçam acabar com espécie de primata exclusivo da Amazônia


Menos de 180 mil Macacos-de-Cheiro-de-Cabeça-Preta se distribuem em áreas de alagações em pequena área de alagação na região do Médio Solimões, no Amazonas. Animal corre risco de extinção
Marcelo Ismar Santana/Instituto Mamirauá
Em 1985 o Macaco-de-Cheiro-de-Cabeça-Preta foi descrito pela primeira vez, avistado na região da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, na região do Médio Solimões, no Amazonas. Antes disso, nunca houve qualquer registro da existência do mamífero que vive crise com as transformações climáticas. Exclusivo da Amazônia, de remota área de alagação, ele vê pela frente sua iminente extinção – creditada, pontualmente, às mudanças climáticas mundiais.
A contar de sua descrição até os dias atuais, calcula-se 34 anos de existência do mamífero. Hoje, enquanto ainda estuda mais as particularidades do macaco endêmico, pesquisadores do Instituto Mamirauá estimam que, em 50 anos, não existam mais os cabeça-preta.
Os números são baseados estudos que desenvolvidos e liderados por Fernanda Paim, líder do Grupo de Pesquisa em Biologia e Conservação de Primatas do Instituto Mamirauá.
Em tempo real
Entre justificativas científicas, estatísticas e planos de preservação que sofrem com a falta de investimento, a bióloga explica, como quem ainda se esforça para processar, que, hoje, a Amazônia – e o mundo – assistem em tempo real a extinção de uma espécie que, a datar de sua catalogação, não passará dos 90 anos de existência. 
Fernanda Paim, líder do Grupo de Pesquisa em Biologia e Conservação de Primatas do Instituto Mamirauá.
Divulgação/Instituto Mamirauá
“Um estudo, baseado em várias datas de clima, de solos e afins, prevê que, em 50 anos, a espécie perca 100% do seu habitat”, comenta a pesquisadora que trabalha com a espécie no instituto desde 2009. 
“Ela será “naturalmente”, com aspas bem grandes, extinta. Por que, esses modelos de pesquisa são todos baseados em mudanças climáticas – que, a gente sabe, são decorrentes da atividade humana”
A equipe de pesquisa do instituto busca, hoje, que o Macaco-de-Cheiro-de-Cabeça-Preta seja elevado ao nível de espécie em crítico perigo – o último que se pode chegar. O pedido é feito à União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) e ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio)
Crise ambiental
Primata tem a menor distribuição geográfica das Américas
Júlia de Freitas/Instituto Mamirauá
De acordo com o Instituo Mamirauá, o aumento na temperatura média e dos períodos de seca, a diminuição da precipitação, as mudanças na dinâmica de vazão e inundação dos rios são algumas das consequências de mudanças climáticas na região da Reserva Mamirauá. 
A previsão de extinção parte de estudos de dois cenários de emissão de gases-estufa na atmosfera reconhecidos pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas.
“A previsão mais otimista é de 70 anos. A mais pesimista é de 50. A gente, hoje, acredita nos 50 anos. Para uma espécie, em uma escala evolutiva, isso não é nada. É como se, para nós, isso fosse amanhã”.
Habitat e seleção natural
Concentrados em uma área de floresta de várzea de aproximadamente 900 hectares, vivem aproximadamente 180 mil cabeças-pretas – que, como o nome sugere, diferenciam-se dos outros da família pela coloração de sua pelagem. O número é pífio, a se considerar que trata-se de toda uma espécie, considera a pesquisadora Fernanda. 
“É em torno de 180 mil, mas é um número superestimado, devido ao método usado. Ainda assim, pode parecer muito, mas é toda população de uma única espécie”, elabora Paim.
Os primatas vivem de frutas e insetos, e vivem em região de alagação. Na perspectiva dos 50 anos pela frente, o padrão de frutificação das árvores sofrerá alteração, afetando diretamente a alimentação base da espécie. 
Área de distribuição da espécie do primata em extinção
Reprodução/Icmbio
Vem à mente, então, os principios darwinianos e os porquês. A espécie sempre lutou para conquistar seu limitado espaço de distribuição geográfica? De quais formas poderia haver uma adaptação ou mudança com a iminente alagação de seu habitat? A pesquisadora explica que o macaco-de-cheiro-de-cabeça-preta, provavelmente, não teve tempo hábil para disseminar sua espécie quando chegou à região.
“Especula-se que a espécie teve uma seleção de habitat muito fina. Ela está muito restrita a esse ambiente porque foi capaz de evoluir somente nesse ambiente. Ela não teve tempo suficiente de dispersar. Essa é uma hipótese bem forte”, afirma.
Apesar de breve documentação de aparições em pequenas ilhas do Rio Solimões, registradas pelo grande pesquisador e articulador da Reserva Mamirauá, Marcio Ayres, os cabeça-preta ficam concentrados na região da Reserva. 
“Presos” na região que sofre com a incidência – cada vez de níveis mais altos – de alagação, os primatas têm, por característica natural, a preferência por habitats mais baixos da reserva. Pequenos, ainda que ágeis, precisariam enfrentar outras espécies da mesma família para expandir geograficamente. O que pode ser um problema. 
“Eles ficam nas copas, mas elas são baixas. Muitas ficam completamente submersas. Se esses modelos de estudo forem confirmados, em 50 anos eles não terão para onde ir. Para que eles atravessem essas barreiras, eles vão ter que competir com outras espécies que tem”, completa Fernanda ao detalhar a distribuição geográfica e seus processos naturais de habitat.
“Especula-se que a espécie teve uma seleção de habitat muito fina”, diz pesquisadora
Fernanda Pauim;Instituto Mamirauá
Trabalhos para manutenção da espécie
Com toda a equipe de primatólogos e profissionais de outras áreas do Instituto Mamirauá, em parceria com a Universidade Federal do Pará, hoje, trabalha-se em estudos de reprodução por inseminação para que a espécie seja preservada. 
“Temos feito alguns trabalhos para formar um banco de coleta com células reprodutivas de machos e fêmeas e fazer os mesmos protocolos que se faz com humanos. Inseminação. Para que, no futuro, quando necessário, a gente possa reintroduzir a espécie”.
Esbarra-se, como a pesquisadora explica, na falta de recursos para a preservação da espécie endêmica.
“São cerca de 200 mil para laboratório, equipe, equipamentos e outros fatores para estudos e coletas de material genético. A gente se sente impotente. Temos a faca e o queijo na mão.
“Temos condições logística para fazer isso, tem recursos humanos, mas não tem financiamento. É menos de R$ 1 milhão. Para salvar uma espécie, isso não é nada”, destaca ao calcular, por baixo, o trabalho que tem sido estudado para manter a espécie.
Ao articular sobre os estudos e projetos para a conservação do primata endêmcio, Fernanda Paim discursa, ao fim, breve aula sobre a importância da manutenção do macaco – e qualquer outra espécie.
“É sempre o mesmo. Mas é importante falar, sempre. Os macacos, como consomem frutos, podem auxiliar na dispersão daquelas espécies de árvores. Como eles comem insetos, ajudam no controle de possíveis pragas. Se tirar todos eles de lá agora, muitas das espécies de frutos podem deixar de se degenerarem. A importância deles é para a manutenção da floresta como um todo”, complementa. 
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